Durante 5 anos, todos os fins de semana levava as compras à minha vizinha de 85 anos. Depois do funeral dela, o notário entregou-me uma pasta, e quando vi a primeira página, as mãos tremeram-me…

Durante 5 anos, todos os fins de semana levava as compras à minha vizinha de 85 anos. Depois do funeral dela, o notário entregou-me uma pasta, e quando vi a primeira página, as mãos tremeram-me…
Durante cinco anos, todos os sábados de manhã, pegava no saco de pano verde que tinha pendurado atrás da porta e descia ao mercado. Primeiro o pão, depois a fruta —que a Lurdes queria sempre madura, não verde como a que vendiam no supermercado—, depois o iogurte natural sem açúcar, as lentilhas de lata porque já não conseguia abrir as de vidro, e se houvesse pescada fresca a bom preço, também pescada. Tudo isto antes das onze, porque a essa hora eu tinha de estar em casa para fazer o almoço dos meus filhos.
A Lurdes vivia no terceiro andar B. Eu no quarto A. Conhecemo-nos no elevador, um dia em que se lhe caiu a bolsa e se derramaram pelo chão os comprimidos, o rosário, um batom velho e uma pastilha de menta. Abaixei-me para a ajudar e desde esse dia já não conseguimos parar de falar.
Não era uma senhora fácil. Tinha um carácter forte, dizia o que pensava sem filtro e às vezes deixava-me de boca aberta. Uma vez devolveu-me o iogurte porque era de morango e ela queria natural. Disse-me assim, sem mais: «Beatriz, isto não é o que te pedi.» E eu fui para casa com o iogurte na mão, um pouco incomodada, para ser sincera.
Mas também era a mulher que me escutou quando o meu marido e eu passámos por aquela época tão má. A que me abriu a porta com um copo de água e ficou calada enquanto eu chorava sentada no sofá de veludo castanho dela, aquele que tinha cheiro a naftalina e ao tabaco do marido morto há vinte anos.
Tinha uma filha no Porto. Telefonava aos domingos, sempre à mesma hora, sempre dez minutos. Por vezes ouvia-a falar do patamar. Não sei o que diziam, mas a Lurdes saía sempre para o corredor depois com aquela cara de quem acabou de engolir algo amargo.
Quando começou a piorar, as suas consultas médicas fazia-as eu. Duas vezes por mês, no carro, com ela a agarrar a bolsa com as duas mãos como se fosse voar. Nunca me agradeceu diretamente. Não era do seu estilo. Mas um dia deixou-me em cima do tapete um saco com um frasco de colónia e um bilhete que dizia: «Para não te esqueceres de mim.» Guardei-o na gaveta do banheiro sem o abrir.
Morreu numa terça-feira de fevereiro. Fria, sozinha, na cama. Encontrou-a a moça da limpeza que vinha às segundas e às quartas. Eu soube pela vizinha do primeiro andar.
O funeral foi pequeno. Veio a filha do Porto, algum primo distante, duas senhoras da paróquia. Ninguém chorou muito. Ou talvez tenha chorado, mas em silêncio.
Três semanas depois telefonaram-me de um cartório no centro. Fui sem saber o que esperar. Pensei que talvez me tivessem deixado a colónia que nunca abri, ou alguma peça da louça de que ela tanto gostava.
O notário era um homem jovem de óculos. Entregou-me uma pasta castanha e começou a falar. Eu não estava a escutar bem. Estava a olhar para a primeira folha.
Era um testamento. E nele, a Lurdes deixava-me o apartamento.
As mãos tremeram-me de verdade. Tive de as apoiar nos joelhos para que não se notasse. Senti um nó na garganta que não me deixava respirar. Não era pelo dinheiro, embora o apartamento valesse muito. Era porque de repente entendi que a Lurdes me dizia, sim. À sua maneira, com aquele testamento, tinha-me dito tudo.
Depois soube que a filha lhe tinha telefonado a pedir dinheiro três vezes no último ano. E que a Lurdes lhe tinha dito não.
Demorei meses a entrar no apartamento. Quando o fiz, a primeira coisa que vi foi o saco de pano verde, o meu, que ela tinha guardado pendurado atrás da porta.
Houve alguém na tua vida que te demonstrou o seu carinho de uma forma que não soubeste ver até já não estar?
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