Histórias

No nosso aniversário de casamento, o meu marido fez um brinde lindo, mas não me agradeceu a mim, e sim a “a mulher que sempre esteve ao seu lado, com a alma e com o coração”…

No nosso aniversário de casamento, o meu marido fez um brinde lindo, mas não me agradeceu a mim, e sim a “a mulher que sempre esteve ao seu lado, com a alma e com o coração”…

Quando conheci o Manuel, eu tinha trinta anos e ele trinta e três. Vivíamos em Aveiro, embora ambos fossemos de aldeias vizinhas. Eu trabalhava numa farmácia de bairro e ele fazia a contabilidade de uma pequena empresa familiar. Não foi um amor de filme. Conhecemo-nos num almoço de amigos, ele levou-me a casa de carro porque estava a chover, e durante o caminho falámos de coisas normais: do preço do aluguer, da mãe viúva dele, da minha irmã recém-divorciada, de como era difícil chegar ao fim do mês.

Gostei dele porque parecia calmo. Não prometia grandes coisas, não dizia frases bonitas a cada cinco minutos. Era daqueles homens que arranjam uma persiana sem fazer barulho e depois se sentam a tomar café como se nada fosse. Ao ano e meio casámos. Eu tinha trinta e dois e ele trinta e cinco. A mãe dele, dona Fátima, chorou na igreja mais do que eu.

No início parecia-me ternura. Pensava: “Pobre mulher, ficou viúva tão jovem, só tem o filho.” Aos domingos almoçávamos em casa dela. Arroz de tomate, salada, pão de aldeia e sempre o mesmo pudim que comprava na pastelaria da esquina. O Manuel sentava-se ao lado dela, cortava-lhe o pão, aproximava-lhe a água, perguntava-lhe se tinha frio mesmo que estivéssemos em agosto.

Eu via aquilo e dizia a mim própria que era bom filho. Demorei muitos anos a entender que uma coisa é ser bom filho e outra muito diferente é não ser capaz de ser marido.

A nossa primeira discussão seria foi pelas férias. Eu queria ir alguns dias ao Algarve. Tínhamos poupado pouco a pouco, metendo notas num envelope dentro da gaveta dos lençóis. Uma noite, enquanto dobrava uniformes da farmácia, o Manuel disse-me que melhor não íamos.

“A minha mãe fica sozinha”, disse.

“São só quatro dias”, respondi.

“Não vou deixá-la assim.”

E não fomos. Nesse verão pintámos o corredor da mãe dele, mudámos as cortinas e arranjámos uma humidade no banheiro. Eu não disse nada, mas lembro-me perfeitamente de uma tarde, ao voltar para casa com as mãos a cheirar a lixívia, ter chorado sentada na borda da banheira.

Depois vieram os filhos, Tiago e Marta. Dona Fátima opinava sobre tudo. Se o menino tinha frio, se a menina comia pouco, se eu chegava demasiado tarde do trabalho, se uma mãe decente não deixava as crianças na cantina. O Manuel nunca discutia com ela. Quando eu protestava, dizia-me: “Não lhe dês importância, ela já é idosa.” Mas no final fazíamos sempre o que ela queria.

Se ela dizia que o aniversário se celebrava em casa dela, era ali que se fazia. Se dizia que no Natal era para fazer borrego, comprava-se borrego. Se dizia que o meu vestido era demasiado escuro para um casamento, o Manuel olhava para mim com aquela cara cansada dele e eu acabava por me trocar para não arruinar o dia.

Durante vinte e cinco anos fui aprendendo a calar-me. Não de repente. Primeiro cala-se para não discutir, depois pelos filhos, depois porque está cansada, depois porque já nem sabe como começar uma conversa sem que pareça uma queixa.

Para as nossas bodas de prata, os meus filhos insistiram em fazer um almoço bonito. Reservaram um salão pequeno num restaurante perto da praia. Eu não queria nada de grande, mas a Marta disse-me: “Mãe, vinte e cinco anos não se fazem todos os dias.” Comprei um vestido azul-marinho, simples, com manga até ao cotovelo. Fui ao cabeleireiro de manhã e até pintei os lábios, coisa que já quase nunca fazia.

Nesse dia tentei estar contente. Havia flores nas mesas, fotografias antigas num canto, um bolo branco com as nossas iniciais. O Manuel estava nervoso, mas simpático. Beijou-me na bochecha ao entrar e disse-me que estava bonita. Não sei porquê, essas duas palavras deram-me vontade de chorar. Talvez porque há muito tempo não as ouvia.

Depois do segundo prato, o Tiago bateu num copo com uma colherzinha e pediu silêncio. O Manuel levantou-se com um papel dobrado na mão. Todos sorriram. Eu também. Pensei que ele ia dizer algo sobre os nossos anos juntos, sobre os filhos, sobre a casa, sobre as vezes em que tínhamos aguentado sem dinheiro, sobre as noites de hospital, sobre tudo aquilo que um casal carrega sem que ninguém veja.

Ele começou bem. Falou da família, do caminho percorrido, de como era difícil manter-se unidos. Depois ergueu o copo e disse:

“Quero fazer um brinde à mulher que sempre esteve ao meu lado, com a alma e com o coração. A que nunca me faltou, a que me sustentou quando eu já não conseguia mais.”

Todos viraram a cabeça para mim. A minha cunhada sorriu. Uma prima do Manuel começou a aplaudir baixinho. Senti o rosto a aquecer.

Mas então vi.

O Manuel não estava a olhar para mim. Estava a olhar para a mãe.

Dona Fátima estava sentada ao fundo, com o seu fato beige, a bolsa sobre os joelhos e os lábios apertados naquele pequeno sorriso que sempre usava quando ganhava sem dizer nada. Ele continuou a falar, mas eu já não ouvia as palavras. Só via os olhos dele fixos nela. Via vinte e cinco anos de domingos obrigatórios, de planos cancelados, de decisões tomadas noutra casa antes de chegarem à minha.

Quando terminou, todos aplaudiram. Alguns abraçaram-me. “Que lindo”, disse-me uma vizinha. Eu assenti como pude. O Manuel veio até mim, deu-me um beijo rápido na testa e voltou a sentar-se junto da mãe para lhe perguntar se queria café.

Foi aí, exatamente aí, que algo dentro de mim se quebrou de uma forma muito limpa. Sem gritos. Sem escândalo. Sem pratos partidos.

Depois do almoço peguei na minha bolsa, ajudei a Marta com as flores e sorri nas fotografias. Numa delas estamos os dois a cortar o bolo. Ele parece orgulhoso. Eu pareço tranquila. Mas quando olho para essa fotografia agora, sei que aquela mulher já se tinha ido por dentro.

Essa noite, em casa, o Manuel tirou a gravata e disse que tudo tinha corrido muito bem.

“Sim”, respondi. “Sobretudo para a tua mãe.”

Ficou a olhar para mim, incomodado, como se eu tivesse dito um exagero.

“Outra vez com isso?”

Não discuti. Abri o armário, tirei uma mala pequena e comecei a guardar roupa. Pouca. Duas calças, três blusas, o nécessaire e um casaco cinzento. Ele perguntou-me o que estava a fazer. Disse-lhe a verdade:

“Vou para casa da minha irmã uns dias. Preciso de saber se ainda existo fora deste casamento.”

Não me seguiu. Não me abraçou. Não me pediu desculpa. Só telefonou à mãe.

Ouvi-o do corredor: “Mãe, não te preocupes, ela é que está nervosa.”

Então acabei de fechar a mala. E por primeira vez em vinte e cinco anos não esperei que ele escolhesse por mim.

E vocês, teriam perdoado um brinde assim depois de toda uma vida a sentir-se em segundo lugar?

Se esta história vos tocou o coração, partilhem-na com as vossas pessoas queridas.

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