Uma amiga me pediu para cuidar do apartamento dela por um mês enquanto estivesse em viagem de trabalho — já se passaram três meses — vi uma foto dela do lugar onde ela estava de verdade e entendi na hora que precisava dar uma lição nela

Somos amigas há quinze anos. Nos conhecemos no trabalho, depois seguimos caminhos diferentes, mas continuamos próximas — ligávamos uma para a outra, nos encontrávamos, sabíamos tudo o que era importante na vida da outra. Eu a considerava uma das duas ou três pessoas em quem se pode confiar de verdade.
Em abril, ela me ligou e disse que iria fazer uma viagem de trabalho — um projeto grande, em outra cidade, por cerca de um mês. Pediu que eu desse uma olhada no apartamento dela. Não para morar lá — só passar uma vez por semana, verificar a correspondência, regar as plantas. Eu aceitei na mesma hora. Peguei as chaves naquela mesma noite.
Nas primeiras três semanas, tudo correu como combinado. Eu passava lá às quintas-feiras. Regava as plantas, pegava as cartas, às vezes abria a janelinha se o apartamento estivesse abafado. Ela escrevia de vez em quando — mensagens curtas, dizendo que estava tudo bem, que o projeto estava andando, que logo voltaria. Eu não fazia perguntas desnecessárias.
Em maio, o prazo terminou. Ela escreveu dizendo que ficaria mais duas semanas — o projeto tinha se estendido. Eu disse tudo bem. E continuei indo lá.
Em junho, escreveu que seria só mais um pouco. De novo eu disse tudo bem. Mas alguma coisa começou a me incomodar — não exatamente as palavras, e sim a forma como ela escrevia. Frases curtas. Sem detalhes. Sem o carinho de antes.
No fim de junho, abri a página dela — sem motivo especial; fazia tempo que não nos falávamos por telefone e eu quis ver se havia alguma novidade. A última publicação era de três dias antes.
Praia. Espreguiçadeiras. Um coquetel na mão. A legenda estava em outro idioma — algo sobre o mar e a liberdade. A geolocalização indicava um resort no Mediterrâneo. A data da publicação — anteontem.
Fiquei sentada olhando para a tela.
Nenhuma viagem de trabalho. Nenhum projeto. Durante três meses eu reguei as plantas dela enquanto ela descansava à beira-mar e postava fotos na espreguiçadeira.
Não liguei para ela. Não escrevi nada. Só peguei a bolsa e fui até o apartamento dela.
Passei uma hora juntando as coisas dela — de forma metódica, sem pressa. Tudo o que estava espalhado pelos cômodos: livros da mesinha, cosméticos do banheiro, um casaco no encosto da cadeira, o carregador na tomada, os chinelos na entrada. Coloquei tudo em três sacolas e deixei do lado de fora da porta.
Depois, mandei uma única mensagem — dizendo que as coisas estavam na porta e que eu deixaria as chaves com a vizinha de baixo, que ela conhece. Acrescentei que tinha regado as plantas pela última vez naquele dia.
Deixei as chaves na caixa de correio da vizinha com um bilhete.
Ela ligou quarenta minutos depois. Não atendi. Escrevi uma mensagem — dizendo que estava tudo em ordem, que as chaves estavam com a vizinha, que as sacolas estavam na porta, e desejando boas férias.
Ela ainda tentou ligar mais quatro vezes. Depois, escreveu uma mensagem longa — dizendo que iria explicar, que as coisas simplesmente aconteceram assim, que não achou que isso seria um problema, que eu estava entendendo tudo errado.
Eu li. Não respondi.
Não nos falamos desde junho. Quinze anos de amizade — e três meses no mar enquanto eu regava o ficus dela às quintas-feiras.
Aliás, o ficus eu trouxe para casa. Ele se adaptou bem.
Digam com sinceridade — eu agi certo ao não querer ouvir explicações e simplesmente encerrar tudo, ou quinze anos de amizade ainda assim mereciam uma conversa?




