Histórias

Um cão abandonado no meu abrigo reconheceu seu antigo dono. Mas descobriu-se que ele não veio buscá-lo…

Sou proprietária de um pequeno abrigo para animais há mais de dez anos. Todo dia é uma correria com patas feridas, olhos assustados e histórias que as pessoas preferem esquecer. Pensei que era difícil me surpreender. Mas naquele inverno gélido, tudo mudou.

Às 21:47, recebi uma ligação de Camila, minha voluntária mais dedicada. Havia um assobio de vento no telefone.
«Sofia, venha rápido. Há um cão perto dos lixeiros. Ele mal se move. Parece que não vai durar muito tempo».

Nem me lembro de colocar o casaco e sair correndo. No beco, o cheiro era de frio e umidade. Sob a luz do poste, em um cobertor sujo e rasgado, estava um magro cão cinza. As costelas apareciam, o pelo estava embolado. Os olhos — enormes, cheios de desespero.

«Calma, menina», — sussurrei enquanto a pegava. Ela quase não pesava nada. Não resistiu. Apenas tremia levemente.

Levei-a para uma sala aquecida, envolvi-a em toalhas.
«Você será Bella», — disse enquanto acariciava suas orelhas. — «Você vai sobreviver».

Mas Bella não era como os outros. Quase não comia. Ignorava brinquedos. À noite gemia baixinho, como se chamasse alguém. Me seguia por toda parte, mas em seu olhar ainda havia tristeza.

Alguém a havia traído. E ela ainda esperava.

Semanas se passaram. Depois meses. Os filhotes eram adotados rapidamente. Os gatos encontravam um lar. E Bella permanecia.

Um dia, na primavera, entrou no abrigo um homem de uns quarenta anos. Bem cuidado, arrumado, com um sorriso confiante.
«Preciso de um cão tranquilo. Sem muito apego. Um que não incomode», — disse ele.

Algo em sua voz me alertou.

Passávamos pelos canis, e de repente Bella saltou. Ela correu até a grade, começou a choramingar, a abanar o rabo desesperadamente. Como se algo tivesse se rompido dentro dela.

O homem ficou pálido.

«Parece que ela o conhece», — disse eu, abrindo o canil.

Bella se encostou nas suas pernas, lambia suas mãos, como se pedisse desculpas.

Ele se afastou abruptamente.
«Ela não é o que eu preciso».

Olhei-o mais de perto.
«Você a conhece?»

Ele deu de ombros.
«Ela era minha cadela. Peguei há alguns anos. Muito dependente. Choramingava o tempo todo, arruinava os móveis. Cansei dela. Me livrei dela. Agora quero uma normal».

Senti um aperto dentro de mim.
«Você a abandonou na rua? No inverno?»

Ele acenou indiferentemente.
«Ela se viraria de alguma forma».

Bella ainda tentava se aproximar dele. E ele afastou sua pata como se fosse uma mosca incômoda.

Senti uma raiva fria crescer dentro de mim.
«No nosso abrigo, animais não são entregues a pessoas que já os traíram», — declarei calmamente.

Ele deu um sorriso irônico.
«Sou um cliente».

«E eu a proprietária», — respondi.

Abri a pasta de Bella e comecei a ler os relatórios do veterinário: desnutrição, hipotermia, grave ansiedade após o abandono abrupto do dono. Disse que todas as informações sobre ela estavam documentadas e, se necessário, informaríamos outros abrigos.

Ele ficou vermelho, murmurou algo e saiu, batendo a porta.

Bella não correu atrás dele.

Ela veio até mim.

Daquele dia em diante, tudo começou a mudar. Bella começou a comer com apetite. Parou de choramingar à noite. Nos passeios, começou a brincar, trazer a bola. Seu olhar não procurava mais a porta — ele me procurava.

«Sofia, olha para ela», — sorria Camila. — «Ela parece ter ganhado vida».

Uma noite, sentei-me ao seu lado no chão e disse baixinho:
«Você não estava esperando por ele. Você estava esperando alguém que não a abandone».

Bella deitou a cabeça no meu colo e suspirou profundamente.

No dia seguinte, assinei os papéis. Bella se tornou minha.

Agora ela dorme perto do sofá, me recebe com saltos de alegria e olha para mim como se eu fosse todo o seu mundo.

E aquele homem nunca mais apareceu.

Bella me ensinou algo muito simples: não existem cães «muito apegados». Existem pessoas que não estão preparadas para verdadeira lealdade.

Todos precisam não de uma frieza independente, mas de bondade.

Mas ainda não consigo entender como alguém pode, primeiro, descartar um ser vivo como se fosse lixo e depois, tranquilamente, voltar para buscar uma «nova versão» — e ainda achar isso normal?

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