Histórias

Trinta anos depois, encontrei por acaso o meu primeiro amor — e as palavras dela ao me ver tiraram o chão debaixo dos meus pés

Tenho sessenta e um anos. Sou casado há vinte e oito anos. Tenho dois filhos adultos, uma vida normal, tudo como deve ser. Não sou do tipo que fica olhando para trás — acostumei-me a seguir em frente. É mais fácil assim.

Eu não pensava no meu primeiro amor de propósito. Ela simplesmente às vezes surgia na memória — como surgem as lembranças da juventude, sem pedir licença. Ficámos juntos durante dois anos, quando tínhamos vinte e três. Depois ela foi trabalhar noutra cidade. Eu não fui atrás dela — tive medo. Foi o meu erro, e eu sabia disso. Despedimo-nos e seguimos caminhos diferentes. Nunca mais nos vimos.

Trinta anos.

Na quinta-feira passada, eu estava noutra cidade — uma viagem de trabalho curta, de dois dias. Na noite do primeiro dia, entrei num pequeno café para jantar. Sentei-me junto à janela, fiz o pedido. Estava a olhar para o telemóvel.

Levantei os olhos — e não percebi logo.

Ela estava sentada numa mesa em diagonal à minha. Sozinha, com um livro. Tinha envelhecido — claro que tinha envelhecido, tinham-se passado trinta anos. Mas reconheci-a de imediato. Não foi pelo rosto — foi outra coisa. A maneira de segurar o livro. A inclinação da cabeça. Algo muito antigo e muito familiar.

Fiquei ali sentado a olhar.

Depois ela levantou os olhos do livro. Olhou na minha direção. E parou.

Ficámos a olhar um para o outro durante uns três segundos.

Depois ela fez um leve aceno com a cabeça. Eu levantei-me e aproximei-me.

Cumprimentámo-nos. De forma constrangida — como se cumprimentam pessoas que têm demasiado passado às costas para caber num simples olá.

Ela perguntou — estás aqui em trabalho? Eu disse — sim, numa viagem de trabalho. Ela disse — vivo aqui há vinte anos.

Perguntei se podia sentar-me. Ela disse — sim.

Conversámos talvez durante uma hora. Sobre a vida, o trabalho, os filhos — ela também tem dois. Foi casada — divorciou-se há oito anos. Falava com calma, sem amargura. Eu ouvia e pensava no quanto ela tinha mudado e no quanto continuava a ser a mesma.

Depois a conversa calou-se por um instante.

E então ela disse algo que me tirou o chão.

Disse — eu esperei que me ligasses. Esperei durante muito tempo. Nos primeiros dois anos depois de ter ido embora — esperei todos os dias. Pensava que ias aparecer ou pelo menos ligar e dizer que estavas a caminho.

Olhei para ela e fiquei em silêncio.

Depois ela disse — eu não fui embora porque quisesse partir. Fui embora porque pensei: se ele me ama, vem atrás de mim. Era a minha maneira de pôr isso à prova. Estúpido, eu sei agora. Mas eu era jovem e pensava mesmo assim.

Trinta anos.

Durante trinta anos, pensei que ela tinha ido embora porque tinha escolhido a carreira e não a mim. Que tinha sido a escolha dela, e eu simplesmente a aceitei. Que o meu erro tinha sido não a ter impedido naquele dia, na estação.

O erro dela foi o espelho do meu. Ela esperava que eu fosse atrás dela. Eu esperava que ela voltasse. Ficámos os dois à espera, e nenhum deu um passo.

Trinta anos por causa disso.

Eu não sabia o que dizer. Fiquei sentado a olhar para ela.

Depois disse — eu não sabia. Pensei que tinhas escolhido partir. Que eu não era alguém por quem valesse a pena voltar.

Ela olhou para mim. Depois soltou uma risada baixa — não alegre, mas daquelas com que se ri de algo que já não dói, embora um dia tenha doído muito.

Disse — estás a ver? Os dois fomos idiotas.

Ficámos ali sentados mais meia hora. Já conversávamos com mais leveza. Depois ela disse que precisava de ir. Levantou-se. Eu também me levantei.

À porta, ela virou-se e disse — ainda bem que nos encontrámos. Mesmo.

Eu disse — sim. Ainda bem mesmo.

Ela foi-se embora.

Voltei para a mesa. Pedi um café que eu nem queria. Fiquei sentado a olhar pela janela para a rua.

No quarto do hotel, nessa noite, demorei muito a adormecer. Não pensava nela — pensava em mim aos vinte e três anos. Naquele rapaz que ficou na plataforma e não entrou no comboio.

Não contei à minha mulher. Não porque esteja a esconder algo — simplesmente não sei como contar isto de forma verdadeira, sem que pareça outra coisa, diferente do que realmente foi.

Talvez um dia conte.

Aquele encontro não mudou a minha vida. Não virou tudo do avesso. Apenas fechou algo que tinha ficado em aberto durante trinta anos. Em silêncio e sem palavras a mais.

Às vezes, isso basta.

Digam-me com sinceridade — devo contar ao meu parceiro sobre um encontro assim, ou há coisas que se podem guardar para si?

 

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