Histórias

Quando recebi o diagnóstico, não entendi de imediato o que era mais assustador — a própria doença ou o que viria depois…

O médico falava serenamente. Estágio. Tratamento. Chances. Efeitos colaterais. Eu acenava, fazia perguntas, mantinha-me firme. Saí do hospital e a primeira coisa que fiz foi ligar para o meu marido. Achei que se ele dissesse: «Estou aqui», me sentiria melhor.

Ele chegou à noite. Sentou-se em frente a mim na cozinha. Contei-lhe tudo. Ele ouviu em silêncio. Depois falou:

– Vamos superar isso.

E naquela hora eu acreditei.

Estávamos casados há oito anos. Não éramos a família perfeita, mas éramos comuns. Trabalhámos, pagávamos a hipoteca, nos fins de semana visitávamos amigos. Planejávamos ter um filho quando «tudo estivesse no lugar». Eu realmente achava que tinha um casamento sólido.

Alguns dias depois, ele mudou. Ficava mais calado. Trabalhava até mais tarde. Evitava o olhar direto. Atribuí isso ao medo. Afinal, quem não se assusta ao ouvir a palavra «câncer»?

A primeira quimioterapia foi difícil. Sentia náuseas, tonturas. Ficava deitada em casa, esperando que ele chegasse, se sentasse ao meu lado, segurasse minha mão. Ele chegou tarde e disse que estava cansado.

Uma semana depois, notei que suas coisas no armário estavam diminuindo. Primeiro pensei que fosse minha imaginação. Depois vi a mala. Aberta.

Eu perguntei:

– Você vai embora?

Ele ficou em silêncio por muito tempo. E então disse algo que nunca esquecerei:

– Ainda sou muito jovem para viver com uma mulher doente. Desculpe. Não estou preparado para isso.

Eu olhava para ele, sem acreditar que aquilo era possível. Como poderia dizer isso em voz alta. Não gritei. Não tinha forças. Apenas perguntei:

– E se fosse você?

Ele não respondeu.

Ele saiu naquela mesma noite. Mala. A porta se fechou. Silêncio.

O pior não foi naquele momento. O pior veio depois.

Acordava sozinha à noite. Após os procedimentos, ficava deitada olhando para o teto. O telefone em silêncio. Ele não escrevia. Não perguntava como eu estava. Eu não me sentia apenas doente. Eu me sentia desnecessária.

O cabelo começou a cair rapidamente. Não queria ver os fios no travesseiro. Pedi à minha amiga que viesse. Ela silenciosamente me raspou na cozinha. Ficamos sentadas, com o cabelo caindo no chão. Ela chorava. Eu não. Eu parecia estar entorpecida.

O mais doloroso — eu ainda o esperava. Todo dia. Pensava, talvez ele se arrependesse. Talvez voltasse. Talvez dissesse: «Fiquei com medo. Desculpe». Cheguei a justificá-lo em minha mente. Dizia a mim mesma que para ele também era difícil.

Mas ele não voltou.

O tratamento durou meses. Exames, soro, fraqueza, corredores intermináveis do hospital. Minha mãe ajudava. Colegas contribuíam para o táxi, pois nem sempre conseguia ir sozinha. Mas ele — não.

Um dia, casualmente, o vi em um shopping. Ele estava com outra mulher. Rindo. Estava usando um lenço, com o rosto pálido após a quimio, olhando para ele. Ele me viu. Por um segundo ficou confuso. Depois apenas acenou. Como uma conhecida.

Naquele momento, algo dentro de mim quebrou de vez. Não era o coração. Era a ilusão.

De repente, percebi que o problema não era a doença. A doença apenas revelou a verdade. Se alguém te deixa no momento mais difícil, é porque nunca esteve realmente ao seu lado.

Aos poucos, o tratamento começou a surtir efeito. Foi difícil. Às vezes, queria desistir. Mas eu vivia por teimosia. Contra as palavras dele. Contra o medo.

Quando o médico disse que havia remissão, saí do consultório e chorei pela primeira vez em muito tempo. Não de alegria. Mas por ter sobrevivido sem ele.

Um ano depois, ele escreveu. Uma longa mensagem. Disse que foi um tolo. Que ficou com medo. Que entendeu o erro que cometeu. Que queria voltar.

Eu sentei e olhei para a tela. E de repente lembrei de mim — careca, fraca, sozinha, quando estava aterrorizada. Lembrei-me dele fazendo a mala.

E entendi que não queria alguém que só me escolhesse quando tudo ficou mais fácil.

Não respondi.

Hoje moro sozinha. A doença me transformou. Já não tenho medo de ficar sem um homem. Só tenho medo de uma coisa — acreditar novamente em alguém que pode ir embora.

E sabe o que é mais difícil? Às vezes ainda dói. Não por causa da doença. Mas pela traição.

Diga-me sinceramente: é possível perdoar alguém que te deixou no momento mais assustador da sua vida? Ou há ações que tornam o caminho de volta impossível?

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