Histórias

O pai dos meus gêmeos zombou de mim por causa de uma salada de 5 dólares — eu fiquei calada, mas o carma não

Ele gostava de se chamar de “provedor”. Essa era a sua palavra — ele a pronunciava solenemente, como uma promessa. Quando me convidou para morar com ele, também soou como um presente. Como cuidado.

Mas cuidado não foi o que eu recebi.

Desde o início, suas palavras soavam como regras. Por que eu ainda estou dormindo? Por que estou com fome de novo? Eu mesma queria ter filhos — então, agora aguento. Tudo isso ele dizia com um sorriso irônico, sempre na presença de alguém. Como se precisasse de testemunhas.

Na décima semana, meu corpo mal conseguia lidar. Mas ele ainda assim me arrastava para reuniões e pontos de entrega — eu o seguia com pés inchados e dores nas costas, enquanto ele explicava aos parceiros que sabia como manter a casa em ordem. Eu era parte da imagem.

Naquele dia, visitamos quatro locais em cinco horas. Eu fiquei calada. Aguentei. Até que no carro eu disse baixinho: preciso comer. Não comia desde a noite anterior.

Ele revirou os olhos. Disse que eu comia o tempo todo. Que ele trabalhava para encher a geladeira, e eu a esvaziava à noite. Eu lembrei a ele que estava carregando dois. Ele respondeu que gravidez não é motivo para se considerar especial.

No final, ele decidiu parar em um café à beira da estrada. Daqueles com janelas embaçadas e menu plastificado. Eu não me importava — só queria sentar.

Eu abri o menu e encontrei algo que podia comer: salada com frango e ovo. Cinco dólares.

Quando fiz o pedido — ele riu. Alto. Disse que devia ser bom gastar dinheiro que não se ganha. Na mesa ao lado, as pessoas ficaram caladas. Uma senhora idosa apertou os lábios.

A garçonete — cansada, com cabelo parcialmente preso e um crachá com seu nome — olhou para mim atentamente. Perguntou se eu gostaria de um pouco de biscoitos enquanto esperava pelo pedido. Eu recusei. Ela disse que minhas mãos estavam trêmulas e que isso acontece quando o açúcar está baixo. Saiu sem me deixar protestar.

Voltou com chá gelado e um pequeno prato de biscoitos. Ele murmurou algo sobre pessoas querendo ser heroínas. Ela olhou para ele firmemente e respondeu que estava apenas estendendo a mão para alguém que estava tendo dificuldades.

Quando trouxeram a salada, havia frango frito por cima — eu não tinha pedido. A garçonete se inclinou e disse baixinho: é por conta dela. E acrescentou: não discuta. Eu mesma já passei por isso.

Eu comi devagar e em silêncio. Ele quase não tocou em seu hambúrguer. Ao sair, jogou dinheiro na mesa e foi o primeiro a sair.

No carro, ele disse que eu permiti que as pessoas tivessem pena de mim e o humilhei. Eu respondi que apenas permiti que alguém fosse gentil. E que isso era mais do que ele já havia feito.

Ele ficou calado. Eu também.

Mais tarde, ele voltou para casa diferente. Não com o sorriso habitual — com algo quebrado. Sentou-se de casaco, cabeça baixa. Murmurou que algumas pessoas, aparentemente, se conhecem. Que um cliente pediu que ele não fosse levado a mais reuniões. Que seu cartão corporativo foi retirado.

Ele falava sobre “nada” e “coincidência”. Eu perguntei se tinha certeza de que era “nada”. Ele não respondeu. Levantou-se e subiu as escadas.

Eu permaneci no sofá, me cobri com um cobertor e coloquei a mão na barriga.

Nos dias seguintes, ele vagava pela cozinha, reclamava de e-mails, murmurava sobre “pessoas ingratas”. Não mencionava o nome dela. Não falava sobre a salada. Mas eu me lembrava de tudo.

Comecei a ligar para velhas amigas. Procurava uma clínica. Saía para passear. Lentamente, mas me movia.

Uma manhã, depois que ele bateu a porta, peguei as chaves e voltei àquele café. Ela estava no balcão. Quando me viu, deu um sorriso genuíno.

Nós nos sentamos na pausa dela. Ela trouxe chocolate quente, batatas e um pedaço de torta. Disse que entendia esses desejos — ela mesma já passou por isso.

Eu confessei que ainda esperava que ele mudasse. Ela balançou a cabeça. Disse: não se constrói uma vida baseada em “talvez”. Especialmente quando está esperando filhos. Disse: se quiser que suas filhas saibam como é o amor — mostre a elas como você permite que tratem você.

Eu ouvia e sentia algo em mim lentamente descongelar.

Na saída, ela me deu um saco de papel — batatas para mais tarde e seu número de telefone. “Ligue, se precisar de um lugar quente”, disse ela.

Eu sentei no carro e abri o celular. Marquei uma consulta com o médico. Depois mandei uma mensagem para ele: que ele nunca mais me envergonharia por comer. Que eu estava voltando para a casa da minha irmã. Que ao lado dele eu não podia pensar em mim nem nas crianças.

Guardei o celular. Coloquei a mão na barriga.

Nós não nos encolheremos mais.

Houve alguém na sua vida — como essa garçonete — que viu você no momento certo e mudou algo dentro de você?

 

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