Histórias

O marido fugiu há 11 anos para outra mulher, e ontem escreveu: “Transfira dinheiro para o apartamento, sou o pai dos seus filhos. Você não tem vergonha?” Minha resposta o surpreendeu…

A mensagem chegou ontem de manhã, e eu automaticamente olhei para a tela. O número estava salvo sob a marcante etiqueta “Não atender”. Mas a curiosidade falou mais alto, e eu abri a mensagem.

“Oi. Faz tempo que não falamos. Preciso da sua ajuda. Questão séria. Podemos ligar?”

Eu estava regando as plantas na varanda e, de choque, deixei o regador cair, a água espalhou… Ex-marido. Pessoa que sumiu da minha vida onze anos atrás, deixando um bilhete curto na geladeira: “Estou partindo. Não me procure. Vou explicar depois”.

Mas o “depois” nunca chegou. Até hoje.

Onze anos atrás tudo era diferente. Ele saiu de repente. Ele tinha mais de quarenta, eu um pouco menos. Vivemos juntos por mais de quinze anos. A filha tinha catorze, o filho onze. Eu trabalhava como contadora em uma empresa de comércio, ele — como mestre de obras em uma construção.

Vivíamos no meu apartamento, dado pela avó quando me casei. Ele antes alugava um quarto em um apartamento comunitário, então se mudou para o meu apartamento com apenas uma mala e um violão.

Ele saiu também levemente: pegou documentos, cartão bancário e duas sacolas de roupas. Todo o resto — móveis, eletrodomésticos, louças — ficou. Como se ele nunca tivesse vivido ali.

Uma semana depois descobri por um colega dele: ele foi morar com uma mulher dez anos mais jovem, uma corretora de imóveis que já tinha seu próprio apartamento num prédio novo. O divórcio foi rápido. Eu não resisti. A pensão era mínima — seu salário oficial era ridículo.

Eu fiquei sozinha: com dois filhos, um empréstimo para o apartamento que fiz para reformas, coração partido e completamente desorientada.

Nos primeiros dois anos eu era como um zumbi. Trabalho, casa, filhos, empréstimo. Sem férias, sem diversão. O filho queria jogar futebol — não havia dinheiro. A filha pediu um vestido para a formatura — comprávamos em liquidações. Aprendi a economizar em tudo, até em mim mesma.

Ele não ligava, não se interessava pelas crianças. A pensão chegava automaticamente no cartão — e só. A nova vida dele era em algum lugar lá, e nós ficamos no passado, como lixo desnecessário.

Uma hora depois, respondi com um breve “Escreva o que aconteceu”, e veio um texto longo. A essência era: ele se separou da “nova paixão” — pelo visto, ela o expulsou. Agora ele vive no sofá de um amigo. Quer comprar um apartamento de um quarto, mas não tem dinheiro suficiente.

“Eu tenho metade do valor necessário da venda da chácara dos meus pais, — escreveu ele, — mas não é suficiente. Preciso da mesma quantia. Acho que você poderia ajudar. Transfira essa quantia, e eu devolvo depois”.

Eu li a mensagem três vezes e ainda não podia acreditar nos meus olhos.

Escrevi: “Você está falando sério? Por que eu deveria te dar tanto dinheiro?”

A resposta veio quase instantaneamente: “Bom, eu fui seu marido. Pai dos seus filhos. Você mora num bom apartamento, trabalha, os filhos cresceram. Você está bem. E eu durmo no sofá com mais de cinquenta anos. Você não tem vergonha?”

A palavra “vergonha” parecia explodir dentro de mim.

Concordamos em nos encontrar. Não para ajudar, mas para eu poder falar, para despejar tudo que acumulei em onze anos.

Nos encontramos em um café. Ele parecia mais velho: cabelos grisalhos, postura encurvada, bolsas sob os olhos. A energia antiga se foi. Ele pediu café e croissant, para mim — chá. Sentou-se em frente e começou cautelosamente:

— Você está bem. Até emagreceu.

Eu não sorri:

— Vamos direto ao ponto. Você quer que eu te dê dinheiro para um apartamento?

Ele assentiu:

— Sim. Realmente preciso de um apartamento. Não posso morar eternamente em sofás. Quero uma vida normal.

— Claro, você tem direito a uma vida, — concordei. — Mas por que eu deveria pagar a sua?

Ele franziu a testa:

— Como assim? Vivemos juntos nesse apartamento, eu também investi. Reforma, eletrodomésticos.

Eu respirei fundo e comecei a contar:

— A reforma foi há vinte anos. O papel de parede, o piso laminado — custou uma ninharia naquela época. Nos últimos onze anos, eu mesma gastei dinheiro no apartamento: janelas novas, encanamento, cozinha. Mais o empréstimo, que paguei sozinha. Então, quem deve a quem?

Ele ficou em silêncio e então tentou de outra forma:

— Certo, esqueçamos o apartamento. Mas eu sou o pai das crianças. A família deve ajudar.

Eu quase sibilei:

— Família? Você lembrou que é pai apenas quando precisa de dinheiro? Onde você estava quando o filho precisava de um tutor de matemática? Quando a filha entrou na faculdade e eu vendi joias para pagar o alojamento? Por onze anos, você ao menos ligou para saber sobre as crianças?

Ele ficou vermelho:

— Pagava pensão…

— Miséria! — interrompi. — Para dois filhos! Mal dava para os almoços na escola. Para todo o restante — roupas, livros, atividades, cuidados médicos — eu mesma ganhei. Você não é pai. Você é um patrocinador por obrigação.

Continuei:

— E o mais nojento é que você veio não pedir, mas exigir. Escrever que eu deveria sentir vergonha. Por quê? Por ter levantado os filhos sozinha, quitado o empréstimo e não ter quebrado sob esse peso? Por ter sobrevivido?

Ele ficou em silêncio por um minuto, depois quietamente:

— Então, não vai ajudar?

Eu levantei, peguei a bolsa:

— Não. Não vou ajudar. Onze anos atrás você fez sua escolha: nova vida, mulher jovem, liberdade. E nós ficamos no seu passado, que não te interessou. Agora sua nova vida acabou, e você quer voltar? Desculpe, a porta está fechada.

Ele tentou:

— Bem, pelo menos um pouco… ao menos uma parte…

Parei com um gesto:

— Venda a chácara, faça um empréstimo, trabalhe. Ainda não é tarde para você começar do zero, como eu comecei onze anos atrás.

Saí sem olhar para trás. Ele não tentou me seguir.

Depois ele continuou escrevendo por alguns dias — pedia, acusava, ameaçava com tribunal. Depois parou. Bloqueei o número dele.

Os filhos sabem da história. A filha disse: “Mãe, ele é realmente insolente?”. O filho ficou em silêncio, mas o desprezo estava em seus olhos.

Eu não me arrependo de ter recusado. Algumas pessoas acham que o mundo lhes deve apenas pelo fato de existirem. Vão embora quando é conveniente, voltam quando precisam de dinheiro. Família não é um carimbo no passaporte. Família é quem está por perto nos momentos difíceis. Ele não esteve por perto durante onze anos, e agora não lhe devo nada.

Você teria coragem de pedir ajuda financeira a alguém que você abandonou muitos anos atrás? Ou isso é o cúmulo da audácia?

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