Histórias

No meu aniversário, recebi um presente do meu pai. Ele se foi há cinco anos

Meu pai faleceu há cinco anos. Foi um processo longo, difícil e inevitável. Até hoje, é difícil dizer isso em voz alta – essas palavras me transportam instantaneamente de volta à infância, quando eu me agarrava à bainha do paletó dele e implorava para não ir a mais uma reunião. Ele era mais do que apenas um pai para mim. Brincava que tinha dois empregos: contador durante o dia e “pai de balé” à noite. Levava o segundo título com mais orgulho.

Aos trinta anos, eu esperava que o meu aniversário seria difícil. Uma cadeira vazia à mesa, uma dor familiar em cada marco importante. Ao invés disso, acordei com uma estranha sensação de calma. Preparei um café e abri a porta para pegar o jornal – e algo dentro de mim se moveu. Na soleira havia uma pequena caixa. Sem remetente.

Apenas meu nome – em uma caligrafia que fez minhas pernas tremerem. Não estava impressa ou rabiscada. Era cuidadosa, com uma leve inclinação à direita. A letra inicial tinha aquela curva que contornei com o dedo mil vezes nos cartões da infância. “Não”, sussurrei. “Isso é impossível”. Levei a caixa para dentro. O café esfriou ao lado.

Minhas mãos tremiam quando levantei a tampa. Dentro estavam as minhas primeiras sapatilhas de balé. Aquelas mesmo desgastadas, cor-de-rosa pálido, que joguei fora quando tinha dez anos – no dia em que decidi que não era boa o suficiente para dançar. Estava sentada à beira da cama com o collant, o cabelo em um coque desarrumado. Não me colocaram nem na primeira fila no concerto de primavera. “Não sou boa o suficiente”, disse ao meu pai em lágrimas.

Ele não deu palestras sobre talento e perseverança. Apenas me abraçou e ficou comigo enquanto eu chorava. Na manhã seguinte, joguei minhas sapatilhas fora antes de ir para a escola. Pensei que fosse para sempre. Mas ele as guardou. Debaixo das sapatilhas havia um bilhete dobrado em papel grosso creme. Do lado de fora – novamente o meu nome. Desdobrei. “Venha hoje até o nosso ponto de ônibus”. Só isso. Sem assinatura. Nosso ponto de ônibus – aquele de onde pegávamos o ônibus para a escola de balé todas as manhãs. No inverno, ele chegava com dois copos de papel com chocolate quente. “Um dia, vou precisar de óculos de sol para te ver no palco”, dizia.

Eu revirava os olhos e sorria. Parei de dançar um ano após aquele concerto. Dizia a mim mesma que tinha crescido. A verdade era outra – eu tinha medo de falhar novamente. Meu pai nunca me pressionou. Agora eu estava sentada à mesa da cozinha com as sapatilhas que pensei ter perdido e uma nota que parecia enviada de outro tempo. Coloquei o casaco e saí. O ponto de ônibus ficava a quinze minutos a pé. Evitei aquela rua deliberadamente por anos.

Depois da curva, o carvalho apareceu. Então o banco. Alguém estava sentado de costas. Um homem. Ombros largos, casaco escuro, a cabeça ligeiramente inclinada. Eu sabia que era impossível. Eu estive ao lado de sua cama no hospital. Segurei sua mão quando ela ficou fria. E, mesmo assim, meu coração parou por um segundo. Ele se virou. Não era meu pai. Jovem, uns vinte e cinco anos, com olhos gentis e a energia nervosa de alguém que esperou muito tempo. Falou meu nome. Disse que conheceu meu pai. Que cinco anos atrás era voluntário em um hospital de cuidados paliativos e passava muito tempo com ele. Que meu pai falava sobre mim mais do que qualquer outra coisa. Contou sobre o ponto de ônibus, o chocolate quente, os sonhos com o palco.

Pediu que ele trouxesse de casa uma caixa com sapatilhas – aquela que ele retirou do lixo na manhã seguinte após eu tê-las jogado fora antes da escola. Escreveu o bilhete ele mesmo. Pediu para entregar no meu trigésimo aniversário. “Trinta é a idade certa”, disse ele para mim. “Velha o suficiente para entender. Jovem o suficiente para escolher diferente”. Ele acrescentou: meu pai dizia que ficava à porta do estúdio e chorava depois das minhas aulas.

Não porque eu dançasse mal. Porque estava orgulhoso. E que a única coisa que lamentava era não ter me convencido a continuar. Achava que estava me protegendo. Mas sempre se perguntava se isso se tornou seu único arrependimento. “Eu desisti por medo”, disse eu. “Não porque não amava”. Ele assentiu: “Ele sabia disso”. Depois passou a última mensagem: “Se ela decidir novamente que não é boa o suficiente – diga a ela que ela já era. Sempre foi”. Eu me sentei no banco.

Conversamos sobre meu pai – sobre como ele brincava com as enfermeiras, insistia em usar meias coloridas por baixo do avental do hospital, se gabava das minhas apresentações infantis para quem quisesse ouvir. Quando fui embora, o ar parecia mais leve. À noite, abri a caixa novamente. Peguei as sapatilhas nas mãos. “Está bem, pai”, sussurrei. “Eu te ouço”. Pela primeira vez em muitos anos, a ideia de entrar novamente em um estúdio não me assustava. Parecia um retorno ao lar.

E há algo de que você desistiu por medo – e sobre o qual ainda pensa às vezes?

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