Histórias

Minhas encomendas desapareciam uma após a outra. Eu encontrei uma maneira de pegar o ladrão…

Tenho 52 anos. Meu filho tem 27. Mas essa história ainda queima por dentro, como se tivesse acontecido ontem.

Eu tinha 27 anos quando fiquei sozinha com meu filho de cinco anos. Seu pai aparecia em nossas vidas como um fantasma — prometia ajudar, jurava mudar, e depois desaparecia por semanas. As promessas desapareciam mais rápido do que o dinheiro na conta.

Um dia, simplesmente juntei minhas coisas e fui embora. Pensei que esse seria a decisão mais assustadora da minha vida. Enganei-me.

A vida se tornou uma maratona interminável de sobrevivência. De manhã — o café, onde eu preparava café para os estudantes. À noite — limpeza de escritórios, quando a cidade adormecia. Fins de semana — contabilidade remota em casa, enquanto meu filho dormia ao lado, abraçando um ursinho surrado.

O ex aparecia com pouca frequência, o suficiente para não ser um fardo, mas o suficiente para saber onde vivíamos. Sabia do meu horário. Sabia que eu sempre estava com dinheiro contadinho.

Por isso, as encomendas desaparecidas doeram tanto.

A primeira desapareceu numa quarta-feira. Fraldas. Fiquei de pé na varanda, olhando para o concreto vazio, sentindo algo se apertar dentro de mim. Verifiquei o rastreamento — “entregue”. Liguei para o serviço. Pediram desculpas, prometeram investigar.

A segunda — produtos de limpeza e alimentos infantis. De novo — entregue. De novo — vazio.

A terceira encomenda deveria conter um presente de aniversário para o meu filho. Um conjunto de Lego, que ele sonhou por meses, mostrando-me fotos no catálogo. Eu economizei de cada salário. Encomendei com antecedência.

E desapareceu.

Desabei sobre os degraus da varanda e comecei a chorar. Não de raiva — de impotência. Alguém estava roubando de mim. De nós. De uma criança que já recebia tão pouco.

Os vizinhos não viram nada. A polícia disse que não fariam nada sem provas. Não havia câmeras na entrada.

E então o ex veio “pegar as coisas” que supostamente deixou. Estava de pé no hall, olhou em volta, deu uma risadinha.

«Muitas encomendas chegando para você, — comentou despreocupadamente. — Parece que você está bem agora. Tem dinheiro para nova vida».

Eu congelei. Havia algo em sua voz… sarcástico. Satisfeito.

Ele sorriu e foi embora.

Aquela noite, depois que meu filho adormeceu, sentei na cozinha e comecei a montar o quebra-cabeça. Ele sabia meu horário. Sabia quando eu não estava em casa. Sabia que as encomendas chegavam durante o dia, quando eu estava no trabalho.

O pensamento se formou — grotesco, assustador, mas impossível de ignorar.

E se fosse ele? E se ele estivesse roubando as encomendas não por dinheiro, mas para me machucar? Para me lembrar que podia?

Elaborei um plano.

Uma semana depois, fui a uma viagem de negócios — ajudando um colega com relatórios em uma cidade vizinha. No caminho, entrei numa loja de brinquedos. Na vitrine havia um trem de madeira — brilhante, com vagões que se encaixavam um no outro. Exatamente como o meu filho se encostava na vitrine meses atrás, sussurrando: «Mãe, este aqui. Algum dia».

Comprei sem hesitar.

Comprei uma pequena câmera com sensor de movimento e transmissão para o celular. Escondi-a entre as camadas de papel de embrulho, cuidadosamente fixei com fita adesiva. Fechei a caixa. Enviei para meu endereço.

Esperei dois dias, como em um alfinete. O rastreamento apontou: “entregue”.

Cheguei em casa à noite. A varanda estava vazia.

Sentei no carro. Abri o aplicativo da câmera. A tela piscou — havia uma gravação.

Cliquei em play.

Seu rosto. Em close. Ele se inclina, levanta a caixa, olha ao redor. Rasga o pacote. Pega o trem. Dá uma risadinha.

«Agora ela tem dinheiro para brinquedos, então. Vamos ver o que ela diz quando isso também desaparecer».

A câmera gravou tudo. Seu rosto. Suas palavras. Suas mãos colocando o trem no porta-malas do carro.

Sentei no escuro e chorei — não de tristeza, mas de raiva.

De manhã, levei a gravação para a polícia. O oficial assistiu em silêncio. Repassou duas vezes. Balançou a cabeça.

«É seu ex?»

«Sim».

«Você vai prestar queixa?»

«Imediatamente».

Algumas semanas depois — julgamento. Ele se sentou do outro lado, sem levantar os olhos. O advogado tentava se justificar — dizendo que foi um mal-entendido, que queria ajudar, levou as encomendas para guardá-las.

O juiz reproduziu a gravação. Sua voz ecoou na sala.

«Agora ela tem dinheiro para brinquedos…»

Silêncio.

O juiz leu a sentença: roubo da mãe do próprio filho — ação deliberada, demonstrando desrespeito pelo bem-estar de um menor. Perda do direito a visitas sem supervisão. Restituição dos danos. Pensão alimentícia obrigatória.

Ele se virou para mim. Sussurrou entre os dentes:

«Você fez isso».

Olhei em seus olhos e respondi calmamente:

«Não. Você fez isso  a você mesmo».

Eles o levaram embora. Ombros caídos, fanfarronice desaparecida.

Depois, soube que ele perdeu o emprego quando as acusações vieram à tona em uma verificação de antecedentes. Os amigos pararam de atender suas ligações.

Minha vida foi se tornando mais leve. As encomendas chegavam e permaneciam no lugar. Novas fechaduras. Luzes brilhantes na varanda. Câmeras.

Meu filho aceitou as mudanças com tranquilidade. Um dia, ele perguntou:

«Mamãe, agora estamos seguros?»

Eu o abracei e sorri:

«Sim, meu querido. Estamos seguros».

E pela primeira vez em muitos anos, sabia que era verdade.

E você, tentaria pegar o ladrão por conta própria — ou iria direto à polícia?

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