Histórias

Minha madrasta cuidou de mim depois que meu pai faleceu, quando eu tinha seis anos. Anos depois, encontrei uma carta que ele escreveu na noite anterior ao seu falecimento…

Nos primeiros quatro anos da minha vida, éramos apenas eu e meu pai.

Eu não me lembro muito daquela época. Tudo é meio nebuloso: a barba por fazer em seu rosto quando ele me carregava para me colocar na cama, como ele me colocava em cima da mesa da cozinha.

“Os chefes sentam mais alto”, — ele sorria. “Você é o meu mundo inteiro, entende?”

Minha mãe morreu no parto. E até os quatro anos, eu tinha apenas meu pai.

Um dia, perguntei sobre ela. Estávamos na cozinha, ele fritava panquecas.

“Mamãe gostava de panquecas?”

Ele parou por um segundo.

“Gostava. Mas não tanto quanto teria gostado de você”.

Naquela época, eu não entendia por que sua voz soava tão estranha.

Tudo mudou quando fiz quatro anos.

Naquele ano, ele trouxe uma mulher para casa. Ela se ajoelhou para ficar no mesmo nível que eu.

“Ouvi dizer que você é a chefe aqui”.

Eu me escondi atrás da perna do meu pai. Mas ela não pressionou, não se impôs. E aos poucos, eu me acostumei com ela.

Em seis meses, eles se casaram. E logo depois ela me adotou oficialmente. Eu comecei a chamá-la de mãe. O mundo se estabilizou novamente.

E então ele desabou.

Eu tinha seis anos quando ela entrou no meu quarto. Seu rosto parecia estranho, como se tivesse esquecido como respirar.

Ela se ajoelhou na minha frente.

“Querida. Papai não vai mais voltar para casa”.

“Do trabalho?”

“Definitivamente não”.

Quase não me lembro do funeral. Casacos pretos, cheiro de flores, adultos que acariciavam meu ombro.

Com o passar dos anos, a história permaneceu a mesma.

“Foi um acidente de carro. Um acidente infeliz”.

Quando fiz dez anos, comecei a fazer perguntas.

“Ele estava com pressa? Estava cansado?”

A resposta sempre foi a mesma:

“Foi apenas um acidente”.

Nunca imaginei que pudesse haver algo mais por trás disso.

Quando eu tinha quatorze, ela se casou novamente. Eu disse diretamente:

“Já tenho um pai”.

Ela segurou minha mão.

“Ninguém vai substituí-lo. Apenas agora, você será amada por ainda mais pessoas”.

E eu acreditei.

Quando minha irmã nasceu, ela foi a primeira a me chamar para conhecer a pequena. Depois veio meu irmão. Eu ajudava, alimentava-o com a mamadeira enquanto mamãe descansava.

Aos vinte anos, eu tinha certeza de que conhecia minha história. Trágica, mas clara. Minha mãe morreu me trazendo à vida. Meu pai morreu em um acidente. Minha madrasta se tornou meu verdadeiro apoio.

Mas ainda havia um vazio estranho dentro de mim.

Uma noite, subi ao sótão à procura de um álbum de fotos antigo. Na infância, ele ficava na prateleira, mas depois desapareceu. Ela disse que o guardou para que as fotos não desbotassem.

Eu o encontrei em uma caixa empoeirada.

Folheando fotos do meu pai. Em uma delas, ele segurava uma mulher — minha mãe biológica. Em outra — ele estava fora do hospital com um pequeno embrulho. Comigo.

Eu cuidadosamente tirei a foto do bolso transparente. E junto com ela, caiu uma folha de papel dobrada. Nele estava escrito meu nome. Com a letra do meu pai.

A carta estava datada de um dia antes da sua morte.

Eu lia através das lágrimas.

Ele escrevia que o dia do meu nascimento foi o mais feliz e o mais difícil da sua vida. Que minha mãe me segurou por apenas um minuto e disse:

“Ela tem seus olhos”.

Ele escreveu como tinha medo de não conseguir. Como se preocupava por trabalhar demais.

E então cheguei às últimas linhas.

“Amanhã, vou sair do trabalho mais cedo. Sem desculpas. Vamos fazer panquecas para o jantar, como antes. E vou deixar você colocar chocolate em excesso.

Quero estar mais presente. E quando você crescer, vou te dar um pacote de cartas — para cada etapa da sua vida. Para que você nunca duvide de quanto é amada”.

Eu fiquei sem ar.

O acidente aconteceu à tarde. Sempre me disseram que ele estava apenas voltando para casa do trabalho.

Mas ele estava voltando mais cedo do que o habitual. Para mim.

Desci e mostrei a carta.

Ela ficou pálida.

“Onde você encontrou isso?”

“No álbum. Por que você não me contou?”

Ela fechou os olhos.

“Naquele dia, chovia muito. A estrada estava escorregadia. Ele me ligou do escritório e disse: ‘Não diga a ela. Quero fazer uma surpresa'”.

Senti um aperto dentro de mim.

“Você me deixou pensar que foi um acidente?”

“Você tinha seis anos. Já tinha perdido uma mãe. Eu deveria ter dito que seu pai morreu porque estava com pressa para te ver? Você carregaria essa culpa para sempre”.

As palavras dela ficaram no ar.

“Ele não morreu por sua causa”, — ela disse firmemente. “Ele morreu porque te amava e queria estar com você. É uma tragédia. Mas é amor”.

Por catorze anos, ela guardou essa carta. Para que eu não crescesse com um sentimento de culpa.

Eu me aproximei e a abracei.

“Obrigada por me proteger”.

“Eu te amo”, — ela sussurrou. “Você não é minha de sangue. Mas você é minha filha”.

Pela primeira vez na vida, minha história deixou de parecer quebrada em pedaços.

Papai não morreu por minha causa.
Ele morreu me amando.

E ela durante todos esses anos fez tudo para que eu nunca confundisse uma coisa com a outra.

“Obrigada por ter ficado”, — eu disse. “Obrigada por se tornar minha mãe”.

E finalmente entendi onde é o meu lugar.

E você seria capaz de perdoar uma pessoa querida por uma verdade oculta, se soubesse que ela ficou em silêncio apenas para protegê-lo?

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