Histórias

Minha esposa me pediu para não abrir as encomendas endereçadas a ela — um dia uma delas caiu e se abriu sozinha, e o que vi dentro eu não conseguia explicar de jeito nenhum

Minha esposa faz pedidos online com frequência — roupas, cosméticos, livros. Eu nunca me interessava. O dinheiro é dela, as compras são dela. Às vezes ela dizia — chegou uma encomenda, você pode pegar com o entregador. Eu pegava e deixava sobre a mesa. Ela mesma abria.

Há uns dois anos, ela comentou como quem não quer nada — escuta, não abra minhas encomendas. Às vezes eu compro presentes com antecedência, não quero que você veja sem querer.

Eu disse — tudo bem.

Um pedido razoável. Se eram presentes, eram presentes. Não pensei mais nisso.

As encomendas chegavam regularmente. Eu as recebia dos entregadores e deixava na prateleira do hall de entrada. Ela abria — normalmente na hora ou à noite. Às vezes levava para outro cômodo. Eu não prestava atenção.

Assim se passaram dois anos.

Na quinta-feira passada, eu estava levando uma pilha de coisas do hall para a despensa. Em cima estava uma encomenda da minha esposa — tinha chegado de manhã, enquanto ela não estava em casa. Uma caixa pequena, firme.

Eu me bati no batente da porta. A pilha caiu.

A encomenda bateu no chão. A tampa se soltou — a fita adesiva, pelo visto, estava mal colada. A caixa se abriu.

Eu a peguei automaticamente. Queria fechá-la sem olhar.

Mas vi.

Dentro havia medicamentos. Várias embalagens. Não entendi de imediato o que eram — peguei uma e olhei o nome.

Medicamentos oncológicos. Eu conhecia aquele nome — alguns anos antes, um colega meu tinha recebido um diagnóstico parecido, e naquela época eu tinha lido muito sobre tratamento.

Eu fiquei parado no meio do corredor com a caixa nas mãos.

Medicamentos oncológicos. Numa encomenda que minha esposa me pedia para não abrir havia dois anos.

Fechei a caixa. Coloquei na prateleira. Fui para a cozinha.

Sentei à mesa.

Pensei.

Dois anos. Ela encomenda medicamentos. Pediu para eu não abrir — falou em presentes. Durante dois anos eu peguei as encomendas, deixei na prateleira e não fiz perguntas.

Durante dois anos ela estava tratando alguma coisa — sozinha. Não me contou.

Peguei o telefone. Quis ligar para ela — ela estava no trabalho.

Não liguei. Guardei o telefone.

Fiquei sentado pensando em como ela tinha parecido nos últimos dois anos. Tentei lembrar — tinha havido alguma coisa? Cansaço, perda de peso, alguma mudança.

Lembrei de algumas coisas. Às vezes ela saía mais cedo do trabalho — dizia que tinha compromissos. Algumas vezes cancelou planos na última hora — dizia que não estava se sentindo bem. Uma vez encontrei comprimidos no banheiro — ela disse que eram vitaminas.

Vitaminas.

Minha esposa voltou para casa por volta das sete. Eu estava sentado na cozinha — não tinha feito o jantar, embora normalmente eu cozinhe às quintas-feiras.

Ela entrou. Viu que eu estava ali sentado sem fazer nada. Perguntou — está tudo bem.

Eu me levantei. Fui até o hall. Peguei a caixa. Levei para a cozinha. Coloquei sobre a mesa diante dela.

Disse — a encomenda caiu. Se abriu sozinha.

Ela olhou para a caixa. Depois ergueu os olhos para mim.

Eu não perguntei nada. Apenas olhei para ela.

Ela se sentou. Ficou em silêncio por um longo tempo. Depois começou a falar.

Falou baixo — de forma firme, sem lágrimas. O diagnóstico tinha sido dado dois anos e meio antes. Não era algo fatal — ela disse isso logo de cara. Era uma condição crônica, que exigia tratamento e acompanhamento constantes. O médico a acompanhava regularmente. Ela encomendava os medicamentos online — era mais barato e mais prático.

Eu perguntei — por que você não me contou.

Ela disse — eu não queria que você passasse a me olhar de outra forma. Que tivesse pena de mim. Que todos os dias me perguntasse como eu estou.

Olhar de outra forma. Ter pena.

Eu estava sentado diante da minha esposa, que conheço há vinte e três anos. Que durante dois anos e meio foi ao médico sozinha. Encomendava medicamentos e os escondia em encomendas fechadas. Dizia que eram presentes.

Eu não estava com raiva. Estava abatido — mas não porque ela tivesse escondido. E sim porque esteve sozinha com isso por tanto tempo.

Peguei a mão dela. Perguntei — como você está agora. Não no geral — agora mesmo, como você está se sentindo.

Ela disse — bem. O tratamento está funcionando. O médico está satisfeito com a evolução.

Eu disse — certo. Então, na próxima consulta, eu vou com você.

Ela disse — não precisa.

Eu disse — eu sei que não precisa.

Ela ficou em silêncio por um segundo. Depois disse — tudo bem.

Fomos à consulta duas semanas depois. O médico se surpreendeu — disse que era bom termos vindo juntos. Fiz perguntas que ela nunca tinha feito — depois ela me disse que não achava que isso fosse importante.

Ela já não esconde mais as encomendas. E eu já não finjo que não reparo nos comprimidos no banheiro.

Nós não falamos disso todos os dias — ela não quer, e eu aceitei isso. Mas eu sei. E ela sabe que eu sei.

Às vezes isso basta.

Digam sinceramente — ela agiu certo ao esconder isso por dois anos e meio, ou coisas assim, num casamento, não deveriam ser carregadas em solidão?

 

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