Histórias

Minha esposa me deixou e ao nosso filho recém-nascido e surdo ainda no hospital, mas 20 anos depois, ela voltou com uma exigência rigorosa para ele…

Minha esposa nos deixou no terceiro dia após o nascimento de nosso filho.

Ainda estávamos no hospital quando o médico calmamente explicou que o bebê tinha surdez profunda. Fora isso, ele era absolutamente saudável. Poderíamos colocar aparelhos auditivos, aprender a linguagem de sinais, considerar implantes. Ele poderia viver plenamente.

Apertei a mão da minha esposa e disse:
“Nós vamos superar. Ele é nosso filho”.

Ela lentamente retirou a mão. Olhou para o bebê por um longo tempo e disse:
“Não era assim que eu imaginava”.

Depois acrescentou:
“Ele nem nos ouve. Como vamos viver com isso?”

Tentei falar calmamente:
“Ele é perfeito. Apenas diferente. Vamos aprender”.

Ela balançou a cabeça.
“Eu não assinei para essa vida. Médicos sem fim, explicações sobre por que ele é defeituoso. Eu não consigo”.

Essa palavra eu jamais esqueci.

Não vi ela arrumando as coisas. Apenas ouvi quando a porta se fechou. Um som breve que pareceu dividir a vida em antes e depois.

Fiquei sozinho com um recém-nascido que nunca ouviria minha voz.

À noite, ele chorava sem som. Apenas abria a boca e apertava os punhos. Eu aprendi a entendê-lo pelo rosto, pela respiração, pela tensão do corpo. Durante o dia, trabalhava, à noite frequentava cursos de linguagem de sinais. Os dedos se confundiam, os sinais se esqueciam. O dinheiro era escasso. O sono quase inexistente.

Era assustador. O tempo todo.

Na escola, insinuaram que o currículo regular poderia ser difícil para ele. Eu respondi:
“Ele não ficará para trás. Dêem a ele condições iguais”.

Consegui intérpretes, escrevi petições, discuti. Meu filho cresceu teimoso e inteligente. Ele captava rápido. Sua quietude não era um vazio. Era atenção, concentração, força.

Aos oito anos, ele parou de perguntar onde estava a mãe. Eu não o incitei contra ela. Apenas dizia:
“Ela foi embora. Essa foi a escolha dela”.

Vinte anos se passaram.

Ele se formou na universidade com distinção. Estava alto, calmo, confiante. Uma pessoa, que um dia foi chamada de defeituosa.

E numa noite chuvosa, tocaram a campainha.

Na porta estava ela.

Disse meu nome como se tivéssemos nos separado ontem. Tentou entrar. Eu a parei.

“Por que você está aqui?”

Ela me passou documentos.
“Vim para acertar as coisas. O sucesso do nosso filho é parcialmente mérito meu. Ele é do meu sangue. Tenho direito à metade”.

Olhei para ela e não a reconhecia.

Depois ela disse:
“Tenho câncer. Terceiro estágio. Preciso de cuidados. Ele é obrigado a ajudar. Eu o trouxe ao mundo”.

Eu respondi:
“Você o chamou de defeituoso e foi embora”.

Ela deu de ombros.
“Eu era jovem. Assustada. As pessoas mudam. Se não chegarmos a um acordo, haverá um julgamento”.

O julgamento ocorreu rapidamente.

Na sala, ela chorava. Dizia:
“Tive depressão pós-parto. Estava com medo. Ele isolou meu filho de mim. Não me deixava ver, não deixava ligar”.

As pessoas na sala olhavam para mim de maneira pesada.

A juíza disse:
“Ele tem vinte anos. Quero ouvi-lo”.

Ele se levantou. Calmo. A intérprete estava ao lado.

Ele contou que a mãe foi embora no terceiro dia de sua vida. Que na infância esperava na janela e perguntava em sinais:
“Ela vem hoje?”

E eu respondia:
“Nós daremos conta sozinhos”.

Ele contou como eu aprendi os sinais depois do trabalho. Como discutia com a escola. Como estava ao seu lado nos hospitais e concursos.

Depois disse:
“Amor não são palavras. São ações diárias”.

A sala ficou em silêncio.

Ela não aguentou. Levantou-se e gritou:
“É mentira! Eu te dei a vida! Você me deve!”

A juíza cortou-a rigorosamente.

Meu filho mostrou a última frase. A intérprete disse:
“Eu não devo nada. Fecho a porta que ela mesma fechou”.

A decisão foi clara. Nenhum direito ao dinheiro dele. Nenhum dever. Nenhuma obrigação de contato.

Quando a estavam levando, ela gritava que nos arrependeríamos.

Nós não nos arrependemos.

À noite, sentamos na varanda. Ele tocou meu ombro e mostrou:
“Você sempre foi suficiente”.

Eu respondi:
“Eu não teria conseguido sem você”.

Agora ele é arquiteto. Projeta espaços sem barreiras. Tem trabalho, planos, sua própria vida.

Ela tentou voltar por meio de exigências e ameaças.

Mas amor não volta através de um tribunal.

O que vocês acham, é possível perdoar alguém após vinte anos de silêncio?

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