Histórias

Este inverno, meu filho ficou o tempo todo construindo bonecos de neve, e o vizinho repetidamente os atropelava com o carro. E um dia, meu filho não aguentou e deu uma lição a um adulto que ele nunca esquecerá…

Tenho 35 anos, meu filho tem oito. E este inverno, todo o nosso bairro aprendeu uma lição muito importante.

Tudo começou com os bonecos de neve. Não um ou dois. Um exército inteiro. Todos os dias, depois da escola, meu filho corria para casa com as bochechas rosadas e os olhos brilhantes. Largava a mochila, atrapalhava-se com as botas e puxava o casaco de qualquer jeito. O gorro frequentemente escorregava para cobrir um dos olhos. Quando eu tentava arrumar, ele afastava a mão: “Tá bom assim, os bonecos de neve não se importam com minha aparência.”

Nosso quintal da frente se transformou em seu atelier. Todo dia, o mesmo local. Um canto do gramado perto da entrada da garagem, mas claramente em nossa propriedade. Ele rolava bolas de neve tortas, colocava galhos como braços, pedras no lugar dos olhos e botões. E um lenço vermelho esfarrapado, que ele considerava essencial, fazia deles “verdadeiros”. Dava nomes a cada um deles. Depois se afastava, colocava as mãos nos quadris e dizia: “Sim. Bom rapaz”.

Eu adorava observá-lo pela janela da cozinha. Oito anos e ele falava com seus bonecos de neve como se fossem colegas de trabalho.

O que eu não gostava eram as marcas dos pneus.

Nosso vizinho mora ao lado desde antes de mudarmos para cá. Uns sessenta anos, cabelo grisalho, rosto eternamente insatisfeito. Do tipo que se irrita até mesmo com um dia ensolarado. Ele tinha o hábito de cortar caminho e passar sobre o nosso gramado ao estacionar. Uma economia de, talvez, dois segundos. Eu notava essas marcas há anos e tentava ignorar.

Até que o primeiro boneco de neve foi destruído.

Aquele dia meu filho entrou em casa mais quieto que o normal. Sentou-se no tapete perto da porta e começou a tirar as luvas, deixando cair flocos de neve. Com uma voz fina, disse: “Ele fez de novo”. Soluçou. “Ele viu o boneco. E passou por cima mesmo assim.” Lágrimas escorreram pelas bochechas. Ele as enxugou com a manga e sussurrou: “Ele nem parou. Apenas foi embora”.

Eu o abracei forte. Seu casaco estava gelado.

Naquela noite, olhei por muito tempo pela janela para uma miserável pilha de neve, galhos e pedras. E algo dentro de mim mudou.

No dia seguinte à noite, saí para fora. Ouvi a porta do carro do vizinho bater.

— Olá, — eu chamei.

Ele se virou, já irritado.

— O quê?

— Meu filho está fazendo bonecos de neve ali todos os dias. Esse é o nosso gramado. Por favor, pare de passar por cima. Isso o deixa muito chateado.

Ele olhou para os restos e revirou os olhos.

— É só neve. Diga ao garoto para não fazer onde passam carros.

— Não é uma estrada, — eu disse. — É nossa propriedade.

Ele deu de ombros.

— Neve é neve. Vai derreter.

— Não é sobre a neve, — eu disse. — Ele passa horas nisso. Dói quando vê tudo destruído.

— Crianças choram, — ele desacreditou. — Depois esquecem.

E foi embora.

Mais bonecos de neve foram destruídos. Um após o outro. Meu filho sempre voltava com diferentes emoções — às vezes raiva, às vezes uma tristeza silenciosa. Às vezes chorava. Outras vezes apenas olhava pela janela, com a mandíbula apertada.

— Talvez construir mais perto de casa? — eu sugeri um dia.

Ele balançou a cabeça.

— Este é meu lugar. Ele está errado.

E ele estava certo.

Eu tentei falar com o vizinho novamente. Já estava escuro.

— Está escuro, — ele disse. — Eu não os vejo.

— Isso não muda o fato de que você está entrando no meu gramado, — eu respondi. — Isso não deveria ser feito.

Ele cruzou os braços.

— Você vai chamar a polícia por causa de um boneco de neve?

— Eu estou pedindo para você respeitar nossa propriedade. E meu filho.

Ele riu.

— Então, diga a ele para não construir o que será destruído.

E novamente, foi embora.

Aquela noite, eu me deitei ao lado do meu marido e sussurrei no escuro: “Ele está fazendo de propósito. Eu sinto isso”. Meu marido disse que poderia falar com ele. Eu balancei a cabeça: “Ele não se importa. Ele acha que os sentimentos de um garoto de oito anos não significam nada”. Meu marido ficou em silêncio e disse baixinho: “Pessoas assim eventualmente recebem o que merecem”.

Acontece que “eventualmente” foi em breve.

Alguns dias depois, meu filho entrou correndo em casa com um brilho nos olhos. Disse: “Aconteceu de novo”. Perguntei qual deles foi destruído desta vez. Meu filho sorriu — não maliciosamente, mas com confiança — e sussurrou: “Tenho um plano”.

Fiquei imediatamente preocupada.

— Que plano?

— Segredo, — ele disse.

Pedi para ele prometer — o plano não deve machucar ninguém nem destruir nada. Ele concordou: “Entendi. Não quero machucar ele. Eu só quero que ele pare”.

Eu deveria ter insistido. Eu sei disso agora.

Mas parecia algo como uma placa ou uma mensagem na neve. Eu não imaginava o que ele faria.

No dia seguinte, ele correu para fazer um novo boneco de neve — bem na borda do gramado, próximo ao hidrante. Eu vi manchas vermelhas na neve pela janela.

— Tudo bem? — eu gritei.

— Sim! Este é especial! — ele respondeu.

À noite, enquanto eu preparava o jantar, ouvi um ruído alto. Depois um estrondo metálico. Corri para a janela.

O carro do vizinho tinha atingido o hidrante. A água jorrava como uma fonte, inundando a rua, o quintal e seu carro. Os faróis iluminavam fracamente através do fluxo de água. E na base do hidrante, havia uma pilha de neve, galhos e tecido. Um boneco de neve especial. Ele estava entre o carro e o hidrante. Assim como no trajeto habitual que o vizinho tomava ao passar por aquele boneco de neve. Só que desta vez, atrás do boneco, estava o hidrante.

E tudo fez sentido na minha cabeça.

Hidrante. Boneco de neve. Carro.

Tudo que consegui pensar foi: “Oh…”

Dez minutos depois, os serviços de emergência chegaram. Depois a polícia. O quintal estava inundado de água até os joelhos. O policial se aproximou de mim, perguntou se eu tinha visto o que aconteceu. Concordei com a cabeça. Não consegui falar.

O vizinho estava parado ao lado de seu carro. Molhado. Desorientado. Pela primeira vez em todos esses meses de inverno, ele não estava irritado. Estava chocado.

Ele olhou para a pilha de neve perto do hidrante. Depois para as janelas da nossa casa. Depois novamente para a pilha de neve.

E meu filho estava na porta. As mãos nos bolsos. Calmamente olhando para o vizinho. Não sorria. Não estava com raiva. Apenas olhava.

O vizinho encontrou o olhar dele. Baixou os olhos.

Na manhã seguinte, eu saí para limpar a neve. O vizinho estava perto de seu carro — tinham levado ele no guincho. Quando me viu, acenou com a cabeça. Pela primeira vez em meio ano, ele não desviou o olhar.

— Eu não vou mais passar pelo seu gramado, — ele disse baixinho.

Ele nunca mais passou.

E meu filho? Ele saiu de casa com um lenço vermelho novo. Agachou-se no mesmo canto do gramado. Começou a moldar a primeira bola de neve.

Depois de uma hora, havia um novo boneco de neve no quintal. O mais bonito de todos.

Meu filho se afastou. Colocou as mãos nos quadris. Olhou para ele.

— Sim, — disse ele baixinho. — Bom rapaz.

Seja honesto — o que você teria feito no meu lugar? Teria impedido seu filho? Deixado tudo correr como eu? E se um homem adulto destrói repetidamente o que uma criança faz, sabendo que está lhe causando dor — quem é mais culpado: aquele que destrói? Ou aquele que permite que destrua?

**Итальянски

Related Articles

Back to top button