Enterraram o meu pai na quarta-feira. Eu estava ao lado do caixão, chorando sem conseguir parar. A minha mãe aproximou-se por trás e sussurrou: «Para. Ele não merece isso.» Eu virei-me. E, de repente, percebi que já não podia continuar calada e, ali mesmo, fiz algo que eu própria não esperava de mim. ..

O meu pai morreu no domingo. O coração — rápido e sem aviso. De manhã estava vivo, à noite já não estava. A minha mãe ligou-me — com a voz firme, quase profissional. Disse: o teu pai morreu. Vem, ajuda com os documentos.
Não disse — vem, estou mal. Não disse — vem, eu não aguento. Disse: vem, ajuda com os documentos.
Eu fui. Durante três dias tratei de tudo — morgue, documentos, funeral, velório. A minha mãe dizia o que era preciso fazer, eu fazia. Ela estava controlada, precisa, quase fria. Eu pensava — às vezes as pessoas ficam assim. O choque manifesta-se de formas diferentes.
Eu não sabia tudo sobre o meu pai. Sabia que a vida deles juntos era difícil — discutiam, faziam as pazes. Sabia que a minha mãe era dura com ele — exigente, brusca. O meu pai era calado. Cedia sempre, ficava sempre em silêncio. Eu amava-o por esse silêncio. Por ele estar sempre ali — sem fazer barulho, mas de forma segura.
Na quarta-feira foi o funeral. Veio muita gente — o meu pai era uma boa pessoa, era querido. Eu estava ao lado do caixão.
E não conseguia parar.
Chorava como nunca tinha chorado — não porque quisesse mostrar alguma coisa. Simplesmente não conseguia conter-me. O meu pai estava ali diante de mim, e eu compreendia que nunca mais ouviria a sua voz. Nunca mais o veria a ler o jornal de manhã. Nunca mais ouviria o seu tranquilo — então, como estás, filha?
A minha mãe aproximou-se por trás.
Inclinou-se e sussurrou-me ao ouvido — para. Ele não merece isso.
Eu virei-me.
Ela olhava para mim — calma, quase severa. Como se eu estivesse a fazer algo indecoroso. Como se as minhas lágrimas no funeral do meu próprio pai fossem algo que precisasse de ser travado.
Ele não merece isso.
Eu olhei para ela.
E, de repente, percebi — não era sobre as lágrimas. Era sobre o meu pai. Ela estava a dizer que ele não merecia as minhas lágrimas. Que não merecia a minha dor. Que até ali — junto ao caixão — ela não conseguia deixar de dizer alguma coisa contra ele.
Durante trinta anos ouvi-a falar dele. Baixinho, para que ele não ouvisse. Às vezes nem tão baixinho. Não ganha dinheiro da maneira certa. Não fala da maneira certa. Não segura o garfo como deve ser. Não escolheu o que devia, não vive como devia, não é aquilo que devia ser.
O meu pai calava-se. Sempre se calou.
E eu calei-me com ele.
Mas ele estava no caixão. E já não podia dizer nada.
Eu podia.
Endireitei-me. Olhei para a minha mãe. E disse — nem baixo nem alto. De um modo que os que estavam ali ao lado pudessem ouvir.
Disse — ele merece. Merece tudo o que eu lhe possa dar. E tu não tens o direito de me dizer como devo chorar pelo meu próprio pai.
A minha mãe ficou a olhar para mim.
As pessoas ao lado ficaram em silêncio.
Virei-me de novo para o meu pai. Peguei-lhe na mão — fria. Fiquei assim por um momento.
A minha mãe afastou-se. Ouvi-a a andar — os passos no chão de madeira.
Continuei a chorar. O tempo que foi preciso.
Depois do funeral, no velório, a minha mãe não se aproximou de mim. E eu não me aproximei dela. Ficámos sentadas em pontas opostas da mesa.
À noite, quando toda a gente foi embora, ficámos as duas sozinhas no apartamento.
Ela estava sentada à mesa. Eu lavava a loiça.
Depois ela disse — fizeste uma cena.
Eu fechei a água. Virei-me.
Disse — eu estava a chorar pelo meu pai. Isso não é uma cena.
Ela disse — à frente de toda a gente.
Eu respondi — à frente de toda a gente, sim. Tal como tu disseste, à frente de toda a gente, que ele não merecia.
Ela ficou em silêncio.
Eu disse — mãe, hoje não quero falar sobre isto. Hoje quero pensar no pai.
Ela não respondeu.
Falámos uma semana depois. Durante muito tempo, e foi difícil. Sobre o meu pai, sobre a vida dos dois, sobre aquilo que eu via e calava. Ela dizia que eu não sabia tudo — e provavelmente era verdade. Eu dizia que sabia o suficiente.
Não fizemos as pazes nesse dia. E também não nos zangámos de vez.
Simplesmente, alguma coisa entre nós mudou. Ficou mais honesta, talvez. Mais dolorosa — mas mais honesta.
O meu pai passou a vida inteira em silêncio.
Eu decidi que não vou fazer o mesmo.
Digam-me com sinceridade — fiz bem em dizer aquilo no funeral, à frente de todos, ou a dor não é lugar para esse tipo de palavras?




