Histórias

Ele passou trinta anos sentado no mesmo banco do parque. Um dia, uma desconhecida sentou-se ao seu lado

Todos os dias, ele acordava às seis e meia da manhã. Preparava um café, ficava parado na janela, olhando como o sol banhava a rua tranquila de dourado. No balcão havia apenas uma caneca. Sempre a mesma. Isso já durava tanto tempo que ele quase deixara de perceber.

Trabalhou por vinte e seis anos em uma loja de ferragens. Os clientes o conheciam pelo nome e confiavam nas suas dicas de tintas e ferramentas. O dia seguia o curso normal. Quando os colegas o chamavam para tomar uma bebida após o expediente, ele invariavelmente recusava. Não explicava a razão.

 

Às cinco da tarde em ponto, saía do trabalho. Em casa, aquecia a comida, lavava um prato e um garfo. Às cinco e quarenta colocava uma jaqueta leve — a mesma que usava todas as noites, em qualquer clima. Saía de casa às cinco e cinquenta e sete.

A rota nunca mudava. As mesmas ruas, as mesmas rachaduras no asfalto, as mesmas raízes de árvores emergindo do concreto. O parque surgia ao longe às cinco e cinquenta e nove. O terceiro banco da entrada leste. A tinta estava descascada, a madeira escurecida pelo tempo — mas o banco estava lá.

Às seis em ponto, ele se sentava. Sem telefone, sem livro. Apenas olhava para a entrada e esperava. Uma hora. Todos os dias. Trinta anos.

Os vizinhos já estavam acostumados. Chamavam-no entre si de “o homem-relógio”. Os adolescentes criavam teorias. Uma garotinha foi até ele uma vez e perguntou se ele estava guardando um tesouro. Ele respondeu suavemente: não, apenas está sentado aqui porque prometeu a uma pessoa que estaria.

 

Há trinta anos, ele a conheceu neste mesmo parque. Ela tinha vinte e três anos, assim como ele. Ela estava lendo no banco. Ele perguntou se podia se sentar ao lado dela. Ela levantou o olhar, sorriu e disse: sim. Esse simples “sim” mudou tudo.

Eles se encontravam todas as noites naquele banco. Falavam sobre sonhos, famílias, medos. Ela queria ser professora. Ele queria trabalhar com as mãos, talvez abrir seu próprio negócio. Um dia, ela colocou a cabeça em seu ombro e disse: quero uma casinha. Nada de especial. Apenas o suficiente para nós. Ele acrescentou: e um jardim. Com tomates. Ela riu.

 

Então, uma noite, ela não apareceu. Ele esperou até o parque fechar. Foi até a casa dela. A mãe abriu a porta e disse secamente: ela foi embora. Fez sua escolha. A porta se fechou diante dele.

Ele voltou na noite seguinte. E no dia depois de amanhã. As semanas se transformaram em meses. Ele se convenceu de que não era bom o suficiente. Que ela decidiu que queria outra coisa. E continuou vindo — para que ela soubesse: se mudasse de ideia, ele estaria ali.

Um ritual que começou como uma esperança desesperada se transformou em hábito. E depois — em personalidade.

 

Em outubro, tarde da noite, ele estava sentado em seu lugar, como sempre. O parque estava silencioso. Então ele ouviu passos — lentos, decididos. Alguém estava vindo direto para o seu banco.

Uma jovem, de cerca de vinte e cinco anos, cabelo escuro, casaco comprido. Ela parou em frente ao banco — e se sentou ao lado dele. Em trinta anos, ninguém havia se sentado ao lado dele. Ninguém.

 

Ele olhou direto para frente, com medo de virar a cabeça. Então, decidiu virar. Ela tinha os olhos dela. Os mesmos olhos.

 

Ela disse que se chamava por outro nome, que precisava falar com ele. Explicou: sua mãe morreu três meses atrás. Antes de morrer, contou-lhe sobre ele. Disse que ele estaria ali às seis horas. Que nunca teria faltado um único dia. Que ele era o homem mais fiel que ela conhecia.

Então, ela pronunciou o nome da mãe. Ele já o sabia — desde o momento em que ela se sentou.

Ela contou o que ele não sabia por trinta anos. Sua mãe não foi embora por conta própria. Os pais dela a forçaram a deixar a cidade durante a noite, quando descobriram a gravidez. Mandaram-na para parentes em outro estado. Ameaçaram: se ela entrasse em contato com ele — nunca mais o veria. Eles interceptaram suas cartas, controlaram suas ligações. Ela era jovem e estava assustada.

 

A mãe não o abandonou. Eles foram separados à força.

A desconhecida tirou uma fotografia antiga do bolso. Eles dois no banco. Jovens, rindo, a mão dele no ombro dela. A mãe guardou a foto a vida toda. Mantinha na gaveta ao lado da cama. Olhava para ela todos os dias.

Ela nunca se casou. Criou a filha sozinha, trabalhou em dois empregos. Dizia que houve apenas um homem na sua vida. Que ele era o tipo de homem que mantinha suas promessas — por mais difícil que fosse.

 

Durante trinta anos ele carregou a crença de que não era bom o suficiente. Essa crença moldou cada decisão que tomou. Ele nunca se aproximou das pessoas. Nunca arriscou. Nunca acreditou que merecia algo melhor.

E tudo isso era uma mentira.

 

Então ela disse mais uma coisa. Em voz baixa, quase sussurrando. A mãe queria que ele soubesse: ele tem uma filha. Ela é a filha dele. A mãe fez com que ela prometesse: depois de sua morte, encontrá-lo e contar a verdade.

 

Ele olhou para o relógio — reflexivamente. Faltavam dois minutos para as sete. Durante trinta anos ele foi embora exatamente às sete — com medo de que se saísse mais cedo, perderia a chegada dela.

Ela veio. Não aquela que ele esperava. Mas a que provou: o amor deles era real, duradouro e forte o suficiente para sobreviver a trinta anos de separação.

Ele pediu para que ela contasse sobre sua vida. Contasse tudo. O relógio bateu sete horas e passou. Pela primeira vez em trinta anos, ele não se levantou do banco.

 

E vocês, conseguiriam perdoar as pessoas que roubaram trinta anos da sua vida, ou há ações que estão além do perdão?

Related Articles

Back to top button