Histórias

Durante quinze anos, eu colocava o jantar na mesa exatamente às sete — nesta sexta-feira chegou um “vou me atrasar” pela terceira vez seguida — cobri o prato com uma tampa, sentei ao computador e vi qual era o motivo desses atrasos.

Durante quinze anos, nós tivemos uma rotina. Eu preparava o jantar para as sete. Não porque ele exigisse — simplesmente foi assim desde os primeiros meses de vida juntos. Ele chegava, eu punha a mesa, nós jantávamos juntos. Era o nosso momento — o único do dia em que com certeza estávamos lado a lado.

Eu trabalho. Em tempo integral, às vezes até faço hora extra. Volto para casa por volta das seis e começo a cozinhar logo em seguida. Não porque eu fosse obrigada — mas porque eu queria que nós tivéssemos esse momento. Durante quinze anos, foi isso que eu quis.

A primeira vez que ele escreveu dizendo que se atrasaria foi no começo de setembro. Cobri o prato, jantei sozinha, deixei a comida para ele. Não disse nada — acontece, trabalho. A segunda vez foi uma semana depois. De novo numa sexta-feira. De novo uma única palavra. E eu, mais uma vez, fiquei em silêncio.

Na terceira sexta-feira seguida, a mensagem chegou às seis e quarenta e oito. O jantar já estava na mesa. Quente — recém-saído do fogão. Dois pratos. Dois talheres. Velas que eu tinha acendido porque era sexta-feira.

Peguei a tampa e cobri o prato dele. Depois tirei a segunda vela. Apaguei a primeira. Jantei sozinha.

Depois do jantar, lavei a louça. Limpei a mesa. Coloquei a chaleira para ferver. E, enquanto a água esquentava, abri o notebook. Digitei o nosso bairro. Apartamentos de um quarto. Filtrei por preço. Comecei a olhar as fotos.

Fiquei ali por muito tempo. A chaleira já tinha fervido fazia tempo e a água já tinha esfriado. Eu olhava para cozinhas de outras pessoas, janelas de outras pessoas, vistas de outras pessoas. Fazia as contas — meu salário, o aluguel, quanto sobraria. Dava certo. Sem folga, mas dava certo.

Ele chegou às dez e meia da noite. Disse que me desculpasse, que se prolongou, que estava cansado. Eu respondi que o jantar estava coberto. Nada mais. Ele comeu e se deitou para ver televisão. Eu fechei o notebook.

Na manhã de sábado, levantei antes dele. Passei café para uma xícara. Abri o notebook de novo.

Em dois dias, olhei quarenta e sete apartamentos. Salvei oito. Escrevi para três anúncios. Um respondeu no domingo à noite — eu podia ir ver na quarta-feira.

Na quarta, fui sozinha. O apartamento era pequeno — vinte e oito metros quadrados, terceiro andar, janelas voltadas para o pátio interno. A proprietária mostrou tudo em silêncio, sem me apressar. Fiquei parada junto à janela. Silêncio. Um bordo perto da entrada do prédio. Um banco. Ninguém.

Disse que ficaria com ele. Assinamos na sexta-feira.

Contei ao meu marido naquela mesma noite. Com calma, sem lágrimas. Que eu estava alugando um apartamento e que me mudaria dali a duas semanas. Que eu precisava de tempo para entender o que queria dali em diante. Que a conversa sobre nós ficaria para depois.

Ele ficou em silêncio por um bom tempo. Depois perguntou por quê. Eu disse — por causa de três sextas-feiras seguidas. Ele não entendeu. E eu não fui explicar — se ele não entendeu sozinho, uma explicação não ajudaria.

Moro naquele apartamento há quatro meses. De manhã, passo café e olho para o bordo. Faço o jantar quando quero — um prato só. Às vezes, nem cozinho. Descobri que isso também era possível.

Digam com sinceridade — eu fiz certo em ir embora sem explicar tudo em detalhes, ou deveria ter conversado primeiro e dado a ele uma chance de mudar tudo?

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