Bem em frente ao altar, a minha filha de cinco anos puxou-me bruscamente o vestido e disse-me que tinha acabado de ver o meu noivo a beijar outra mulher

Bem em frente ao altar, a minha filha de cinco anos puxou-me bruscamente o vestido e disse-me que tinha acabado de ver o meu noivo a beijar outra mulher. Um minuto depois, a sala ficou em completo silêncio, e eu fiz algo que todos os nossos convidados ainda recordam até hoje…
Chamo-me Marta e tenho trinta e oito anos. Vivo em Faro, onde nasci, onde enterrei o meu primeiro marido há quatro anos depois de uma longa doença, e onde, depois de muito tempo a sentir-me incompleta, conheci o Tiago na frutaria do bairro, ambos a discutir educadamente pela última caixa de morangos da época.
O Tiago tinha quarenta e um anos, era professor do ensino secundário, paciente com a minha filha Inês como poucos homens tinham sido, e durante dois anos de relação nunca me deu motivo real para duvidar dele. Sim, às vezes ficava pensativo quando tocava certa música no rádio, e uma vez, embriagado num casamento de outras pessoas, mencionou um nome, Patrícia, com uma voz que eu não lhe reconheci, mas quando lhe perguntei disse-me que era uma história de juventude sem importância, do liceu, e eu acreditei nele, porque não tinha motivos para não o fazer.
Organizámos o casamento durante meses. A minha mãe insistiu que fosse na igreja da terra dela, a mesma onde os meus pais se casaram, com aquelas paredes de pedra que ficam frias até em agosto. A Inês estava radiante, escolheu ela mesma as flores do cestinho, peónias rosa, e praticámos durante semanas como ela caminharia pelo corredor devagar, sem correr, como lhe tínhamos ensinado.
No dia do casamento tudo correu como deveria, pelo menos até esse momento. Eu estava radiante, com o vestido que tinha escolhido com a minha mãe depois de experimentar quinze diferentes, o Tiago esperava-me no fim do corredor com aquele sorriso nervoso que os homens têm quando estão verdadeiramente emocionados. Caminhei até ele pelo braço do meu irmão, com a Inês uns passos adiante, a lançar pétalas com uma seriedade absoluta, como se fosse a tarefa mais importante da sua vida.
Chegámos ao altar. O padre começou as primeiras palavras de boas-vindas. E então senti um puxão forte na saia do vestido, tão brusco que quase perdi o equilíbrio.
A Inês, com a cara pálida e os olhos muito abertos, puxou-me até eu me agachar à altura dela.
—Mãe, o noivo beijou uma senhora. Na porta da igreja. Antes de entrar.
Disse-lhe que não, querida, que se tinha enganado certamente, que voltássemos ao nosso lugar. Mas ela negou com a cabeça com aquela teimosia absoluta que só as crianças têm quando estão certas de algo, e apontou para o fundo da igreja, para uma mulher morena, de uns quarenta anos, vestida de um vermelho que desentoava violentamente com o resto dos convidados, sentada no último banco, sozinha.
Olhei para o Tiago. E vi no seu rosto, durante apenas um segundo, aquela expressão que nenhum homem consegue fingir quando é apanhado, aquela mistura de pânico e vergonha que precede qualquer desculpa.
—Marta, eu posso explicar, não é o que…
Não terminou a frase. Toda a igreja tinha ficado em silêncio absoluto, duzentas pessoas a conter a respiração, a minha mãe com a mão na boca, o padre sem saber se continuava ou se calava.
Levantei-me devagar. Peguei na Inês pela mão. E caminhei até ao fundo da igreja, até essa mulher de vermelho, que se levantou ao ver-me aproximar, com uma expressão que oscilava entre o desafio e a vergonha.
—És a Patrícia? —perguntei-lhe, com uma calma que nem eu própria reconheci na minha voz.
Ela assentiu, sem dizer nada.
—O Tiago falou-me de ti há tempos. Disse que eram história, do liceu. Imagino que a irmã dele te tenha avisado do casamento, porque não me lembro de te ter convidado.
A Patrícia baixou o olhar. Não negou.
Voltei-me para o Tiago, que continuava paralisado no altar, para toda aquela gente que havia meses nos ajudava a organizar aquele dia, para as peónias rosa que a minha filha tinha escolhido com tanto cuidado.
—Hoje não há casamento —disse, em voz alta, alta o suficiente para se ouvir até ao último banco—. Obrigada a todos por terem vindo. Lamento muito.
Não gritei. Não chorei à frente de ninguém, embora por dentro sentisse o chão a abrir-se sob os meus pés. Peguei na minha filha ao colo, saí pela porta lateral da igreja, e não olhei para trás nenhuma vez, enquanto atrás de mim ficava o murmúrio de duzentas pessoas que demorariam anos a deixar de falar daquele casamento que nunca chegou a acontecer.
Já passaram oito meses. A Inês continua a perguntar-me de vez em quando se voltaremos a ver o Tiago, e eu digo-lhe que não, querida, que algumas pessoas ficam pelo caminho, e que está tudo bem que assim seja. A única coisa que penso, quando recordo aquele dia, é que a minha filha de cinco anos teve mais coragem para dizer a verdade do que um homem adulto de quarenta e um anos para não me mentir durante dois anos.
E vocês, teriam reagido da mesma forma perante algo assim, em frente de todos? Acham que fiz bem em parar o casamento nesse mesmo instante, ou pensam que devia ter esperado para falar a sós?
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