Histórias

As irmãs estavam dividindo a casa da avó. Eu só fiquei com o cachorro velho dela — e fiquei sem palavras quando escaneei o código na coleira dele

Quando a avó recebeu o diagnóstico, eu tinha vinte e oito anos. Mudei minha vida para me ajustar à rotina dela. Minhas irmãs apareciam a cada poucas semanas com flores de supermercado, tiravam uma foto triste e iam embora. Uma vez, depois da quimioterapia, as mãos da avó tremiam tanto que ela derramou chá. O cachorro dela — velho, de focinho grisalho e com um resmungo ofendido — colocou a cabeça no colo dela. A avó apertou minha mão e disse: quando eu me for, elas virão correndo. Pediu-me apenas uma coisa: se o circo começar, leve o cachorro. «Por que circo?», perguntei. «Porque vão farejar dinheiro», respondeu ela calmamente. Eu prometi. Três meses depois, ela nos deixou.

No funeral, minha irmã mais velha chorava alto no lenço. A do meio segurava sua mão e olhava ao redor. Dois dias depois, estávamos sentadas no escritório do notário. Minhas irmãs não o deixaram terminar a primeira frase — interromperam com uma pergunta sobre a casa. O notário anunciou: a casa ficaria para as duas. Elas trocaram olhares e sorrisos. Depois se viraram para mim. A avó me deixou o cachorro. A mais velha riu: o cachorro? A do meio sorriu: parabéns, você cuidou da vovó à toa.

Levantei e perguntei apenas uma coisa: posso levá-lo hoje? O notário assentiu. Saí, sem olhar para trás. O cachorro estava esperando no carro em um cobertor que cheirava à vovó. Agitou gentilmente o rabo. Em casa, cheirou cada canto, deitou com um suspiro pesado, e chorei, aconchegada em sua pelagem. Naquela noite, ele não conseguia se acalmar. Continuava cutucando a coleira com a pata e me encarava. Eu me abaixei — na chapa havia um pequeno adesivo com um código QR.

Às duas da manhã, com o telefone trêmulo, eu o escaneei. Abriu-se uma página: «Para quem escolheu o cachorro. Insira a senha». Tentei opções óbvias — nada. Depois lembrei-me de como a vovó me chamava na infância. Inserir essa palavra. A página abriu. Um vídeo carregou. Na tela apareceu a vovó — viva, clara, sorridente. Eu quase parei de respirar. Ela disse que, se eu estava vendo isso, era porque fiz o que ela pediu. Explicou: o cachorro era um teste. Para quem o pegasse e perguntasse «o que mais?» — ela não confiava. Eu o levei sem questionar. Por isso, para mim — a verdade. Pediu que no dia seguinte eu fosse à clínica veterinária e solicitasse uma pasta registrada no nome do cachorro. Na recepção, a atendente o viu — e em silêncio foi para a sala dos fundos. Voltou com a pasta.

No carro, abri o envelope com a inscrição «somente para mim» e encontrei dentro uma chave com um bilhete: «Caixa de armazenamento 118. Leve alguém com você». Liguei para uma amiga. A caixa estava cheia de caixas organizadas, álbuns de fotos e uma pequena caixa de metal. Em casa, abri o envelope da pasta. Dentro havia extratos bancários, um caderno manuscrito e um documento titulado «Condição de reserva do fundo». Eu o li três vezes.

Se as irmãs tentarem vender a casa, hipotecá-la ou remover bens antes do término da partilha de herança — a casa será transferida para uma fundação de caridade. Elas a perderão. No caderno, a vovó registrava cada «empréstimo» às irmãs — até o último centavo. Aluguel, carro, «devolvo na próxima semana». Nada foi devolvido. No pen-drive havia mensagens de voz: as irmãs pedindo para colocá-las na conta, garantindo que resolveriam os papéis enquanto a vovó estava doente.

Elas não estavam ocupadas. Elas eram gananciosas. Uma semana depois, fui à casa da vovó buscar lembranças. Levei o cachorro — caso as irmãs decidissem «perdê-lo». Do lado de dentro, a música estranha estava alta. Elas já estavam mandando: caixas no corredor, sacos de lixo no chão. Uma delas segurava um forma de torta da vovó com dois dedos — por que ela guardava essa tralha? A outra gravava uma pilha de louça antiga — isso vale dinheiro, não jogue fora.

Perguntei o que estavam fazendo. «Organizando. Aqui é um verdadeiro tesouro de ouro», respondeu a do meio. A mais velha nem cumprimentou — disse: leve suas bugigangas, só não toque no que é valioso. Coloquei a pasta na mesa ao lado das caixas delas e silenciosamente deslizei o documento do fundo para elas. A mais velha leu as primeiras linhas e congelou. A do meio espiou por cima do ombro. «Ela não podia ter feito isso», disse uma. «Já está feito.

O documento foi protocolado», respondi. Coloquei os extratos e o caderno. Pedi-lhes para explicarem as quantias que coincidiam com os empréstimos registrados. Elas gritavam que eu estava me fazendo de heroína, que era chantagem. Eu disse: a vovó estabeleceu as regras. Eu estou cumprindo. Pedi que colocassem tudo de volta.

A mais velha mudou de tom: «O que você quer?» Eu olhei para a sala onde a vovó abria a massa e me chamava pelo meu apelido. «Quero que vocês parem de transformar a vida dela em um mercado de pulgas», eu disse. Afivelei a guia e saí. Do lado de fora, o ar estava frio e limpo. O cachorro andava ao meu lado — constante, como uma batida do coração. No carro, minhas mãos tremiam. Não foi uma vitória. Foi a prova de que a vovó via tudo — e ainda assim encontrou uma maneira de proteger o que é importante.

E você, no lugar da protagonista, tentaria se reconciliar com as irmãs ou fecharia essa porta para sempre?

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