Histórias

Adotámos uma menina de quem todos desistiram porque ela estava numa cadeira de rodas — e vinte e cinco anos depois, uma carta revelou a verdade sobre o seu passado…

Agora tenho setenta e quatro anos. O meu marido — setenta e oito. Durante muito tempo não tivemos filhos. Fizemos tratamentos, fomos a médicos, tivemos esperança, depois deixámos de ter. Num certo momento, ficou tudo em silêncio. Vivíamos só nós dois e tentávamos não tocar neste assunto.

Sobre ela fiquei a saber acidentalmente. Uma conhecida trabalhava num centro de reabilitação e comentou: há uma menina, seis anos, numa cadeira, com problemas nas pernas desde o nascimento. Os pais desistiram. Potenciais adotadores vêm, olham, perguntam se ela algum dia conseguirá andar, e nunca mais voltam.

Perguntei: ela é inteligente?
A conhecida respondeu: muito. E acrescentou baixinho: ela entende tudo.

Em casa, contei ao meu marido. Honestamente esperei que ele dissesse que já não somos jovens, que seria difícil, que não conseguiríamos. Ele ficou em silêncio, depois perguntou: ela está lá sozinha?
Eu disse: sim.
Ele respondeu: vamos vê-la.

No centro, ela estava sentada à janela e a desenhar. A cadeira era maior que ela própria. Quando entrámos, ela endireitou-se imediatamente, como se estivesse preparada para mais uma inspeção. Não sorriu. Olhava sério.
Perguntei o que ela estava a desenhar. Ela disse: uma casa.
Perguntei de quem.
Ela encolheu os ombros: de ninguém ainda.

Isso foi tudo. Já sabíamos.

A formalização levou quase um ano. Disseram-nos que seria difícil. Que seriam necessários tratamentos, talvez cirurgias, que seria necessário cuidado constante. Ouvíamos e acenávamos com a cabeça. O que nos assustava era outra coisa — e se ela não acreditasse que não iríamos embora.

Na primeira noite em casa, ela quase não dormiu. Perguntou onde podia colocar a cadeira para não atrapalhar. Perguntou se deveria chamar-nos pelo nome. Perguntou se, ao quebrar uma chávena, a levariam de volta?

Pela primeira vez, percebi quanto medo há num pequeno ser humano.

A escola foi um inferno. As crianças são cruéis, mesmo que tenham oito anos. Chamavam-lhe nomes. Perguntavam o que havia de errado com ela. Um rapaz disse que os pais desistiram dela porque ela estava “quebrada”. Ela voltou para casa e ficou em silêncio. Depois perguntou: vocês só me pegaram por pena?

Não aguentei e comecei a chorar. Disse: escolhemos você. Não porque está numa cadeira. Mas porque você é nossa.

Ela cresceu determinada. No início movia-se sozinha, depois aprendeu a conduzir um carro adaptado. Entrou na universidade. Tornou-se arquiteta. Dizia que queria construir casas sem degraus, para que ninguém se sentisse excluído.

Nunca escondemos que ela era adotada. Na adolescência, ela uma vez perguntou por que os seus pais biológicos desistiram. Só sabíamos que a mãe era muito jovem. Nada mais.

E há três meses chegou uma carta. Sem remetente. Dentro — uma escrita cuidadosa. Uma mulher escrevia que ela era a sua mãe. Tinha dezesseis anos quando a filha nasceu. Os médicos disseram que a criança tinha uma grave patologia nas pernas. Os pais insistiram na desistência. Disseram que tal vida era punição e vergonha. Ela assinou os documentos sob pressão. Escreveu que seguiu à distância. Que viu na internet a formatura da nossa filha. Que se orgulhava, mas não tinha o direito de se envolver. Agora está gravemente doente. E quer que a filha saiba: ela não foi abandonada por causa da cadeira. Ela não foi considerada um erro. Tinham medo dela.

Demorei a entregar a carta à minha filha. Tinha medo de que isso destruísse tudo. Mas o meu marido disse: é a verdade dela.

Ela leu em silêncio. Depois só disse uma coisa: passei tantos anos pensando que não me queriam porque eu não andava.

Ela não chorou. Apenas ficou sentada a olhar para um ponto. Depois abraçou-nos e disse: vocês são os meus pais de qualquer maneira.

Ela encontrou-se com aquela mulher. Calmamente. Sem escândalos. Voltou e disse: senti-me melhor. Não porque eu a perdoei. Mas porque agora sei que a questão não era comigo.

E agora eu penso. Quantas crianças vivem com a sensação de que são “diferentes” e por isso desnecessárias? Quantos adultos tomam decisões por medo e depois vivem com isso a vida inteira?

Se você estivesse no lugar da minha filha — gostaria de encontrar aquela mãe ou preferiria não reabrir uma velha ferida?

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