A vizinha de baixo tocou à minha porta e disse: “Quando você anda, o meu teto treme. Você por acaso já se olhou no espelho?” Fiquei parada à porta sem saber o que responder à humilhação dela. Sim, estou acima do peso. Eu sei disso. Convivo com isso todos os dias. Mas este é o meu apartamento. A minha vida. Ela ficou ali, esperando uma resposta. E foi nesse momento que vinte anos de silêncio chegaram ao fim e eu parti para cima dela…

Estou acima do peso desde a juventude. Não porque como demais ou me mexo pouco — é isso que as pessoas pensam primeiro e é a primeira coisa que dizem. Tireoide. Hormônios. Anos de tratamento, exames, endocrinologistas. Conheço o meu corpo melhor do que qualquer outra pessoa. E convivo com isso todos os dias — não porque me conformei, mas porque não há outra escolha.
Durante vinte anos ouvi de tudo.
No mercado — isso não é demais para você? No trabalho — como você engordou. Dos parentes — cuide mais de si mesma. Às vezes, dos médicos — bom, você entende que precisa emagrecer — e isso quando eu tinha ido por causa de um resfriado.
Durante vinte anos fiquei calada. Sorria. Dizia para mim mesma — não vale a pena se envolver. Sai mais caro para mim. Eles não entendem.
A vizinha de baixo apareceu há dois anos. Uma senhora idosa — com uns setenta anos. Eu a cumprimentava. Segurava a porta do elevador. Uma vez até a ajudei a levar as sacolas.
No sábado de manhã ela tocou à minha porta.
Abri — de roupão, tinha acabado de levantar.
Ela estava na soleira. Olhando para mim.
Disse — quando você anda, o meu teto treme. Você por acaso já se olhou no espelho?
Fiquei parada à porta.
Já se olhou no espelho?
Eu — que todas as manhãs me olho no espelho e sei tudo sobre o meu corpo. Que há vinte anos vou a médicos, tomo remédios, faço exames. Que sei de cor o meu cardápio, as minhas restrições, os meus números.
Já se olhou no espelho?
Ela ficou ali, esperando.
E então — não sei por que justamente naquele momento, justamente ela, justamente naquela manhã — algo se rompeu depois de vinte anos.
Eu não parti para cima dela fisicamente — não. Eu falei.
Disse — sim. Eu vejo. Vejo todas as manhãs. E sei sobre o meu corpo tudo aquilo que a senhora não sabe e nunca vai saber.
Ela abriu a boca.
Continuei — eu tenho uma doença da tireoide. Estou em tratamento há vinte anos. Há vinte anos vou a médicos. Isso não é por causa de bolos nem por preguiça. Este é o meu corpo e esta é a minha doença, e isso não é da sua conta.
Ela disse — mas o teto.
Eu disse — sobre o teto, essa é outra conversa. Se há problemas concretos — síndico, isolamento acústico. Isso pode ser resolvido. Mas a senhora não veio falar sobre o teto. A senhora veio me falar sobre o espelho.
Ela ficou em silêncio.
Eu disse — a senhora é uma pessoa idosa. Há dois anos eu a cumprimento. Seguro o elevador para a senhora. Ajudei com as sacolas. E a senhora veio numa manhã de sábado me dizer aquilo que eu vi no espelho.
Pausa.
Depois acrescentei — eu moro no meu apartamento. Ando pelo meu apartamento. O meu corpo é assunto meu. Se é sobre o teto — fale com o síndico. Se é sobre o espelho — esta foi a última vez.
Fechei a porta.
Não bati. Apenas fechei.
Fiquei parada no meio da entrada.
As minhas mãos não tremiam — o que foi surpreendente. Por dentro havia uma calma estranha. Aquela calma que vem quando algo enfim é dito e já não dá para voltar atrás.
Fui até a cozinha. Coloquei a chaleira no fogo. Preparei o café da manhã.
Uma hora depois, tocaram à porta de novo.
Abri.
A vizinha estava ali — diferente. Não aquela mulher segura de si de manhã cedo.
Disse em voz baixa — eu não sabia da doença. Fui grossa da minha parte.
Olhei para ela.
Depois disse — obrigada por dizer isso.
Ela disse — sobre o teto, vou falar com o síndico. Desculpe por ter acontecido assim.
Eu disse — tudo bem.
Ela foi embora.
Fechei a porta.
Não sei exatamente o que funcionou. Talvez o fato de eu não ter gritado. Talvez o fato de eu ter falado dos fatos — doença, médicos, exames. Talvez simplesmente ela não esperasse que eu respondesse.
Durante vinte anos eu não respondi.
No sábado de manhã, respondi.
Não por maldade. Simplesmente — chega.
O meu apartamento. A minha vida. O meu corpo.
E vinte anos de silêncio para uma pessoa — já é o bastante.
Digam sinceramente — fiz bem em responder na hora, ou eu deveria primeiro ter me acalmado e depois conversado sem emoção?




