Histórias

A sogra cortou o cabelo da minha filha enquanto eu estava no trabalho — eu não gritei, mas no dia seguinte ela acordou e se arrependeu do que fez

Minha filha passou metade da noite com febre e dor de barriga. Ela tinha oito anos, e seus longos cachos dourados estavam grudados em sua testa. Eu já tinha tirado um dia de folga este mês — hoje não podia.

Meu marido disse que a mãe dele se ofereceu para ficar com ela. Aquela mesma mulher que durante oito anos se recusou a ajudar — dizia que seu cachorro sofria com a separação. A mesma — e de repente se ofereceu.

Algo dentro de mim dizia: recuse. Eu não ouvi.

Deixei instruções detalhadas: repouso na cama, desenhos animados, bebida quente. Nada de passeios, sem visitas. Despedi-me da minha filha e fui trabalhar.

Ao meio-dia o telefone tocou. Era minha filha — ela mal conseguia falar entre os soluços. Disse que a avó mentiu para ela. Que prometeu trançar o cabelo — mas pegou a tesoura. E disse que era assim que eu queria.

Eu já estava com as chaves na mão.

Quando entrei em casa, a sogra estava na cozinha varrendo algo do chão. Ela estava cantarolando. Aos seus pés estavam os cachos dourados da minha filha.

A sogra me informou que o cabelo estava muito emaranhado — então ela arrumou. Acrescentou que na semana seguinte seria o casamento, que toda a família estaria lá, e que a criança deveria estar apresentável. Disse que o novo corte era mais estiloso e combinava com o formato do rosto da menina.

Do corredor veio o som de uma porta de banheiro se fechando.

Eu disse à sogra calmamente, sem levantar a voz: ela confiava em você, e você a traiu.

A sogra desdenhou. É só cabelo.

Respondi: não. Este é o cabelo da minha filha.

Peguei o telefone e comecei a tirar fotos. Cachos no chão. Tesoura no balcão. O elástico favorito da minha filha, jogado no canto. A sogra me olhava com crescente preocupação. Ótimo.

Fui até a porta do banheiro e bati suavemente.

Minha filha estava sentada no tapete, abraçando os joelhos. Ela disse que pediu para parar quando percebeu o que estava acontecendo. Que a avó a chamou de desleixada. Até disse que ela parecia uma desabrigada.

Eu me abaixei ao lado dela no chão. Disse: isso não é verdade. Você é uma criança de oito anos. E só você decide o que acontece com seu corpo. Ela encontrou algo parecido com um sorriso.

Eu a envolvi em um abraço, e ela se derreteu.

À noite, quando minha filha adormeceu, liguei para minha mãe.

Contei tudo. Minha mãe ouviu e disse: vem amanhã para o salão. Tenho uma ideia. Vamos resolver tudo direitinho.

Aquela noite, a sogra ficou — esperando o marido para contar sua versão. Meu marido, depois de nos ouvir, disse: é só cabelo. Quase repetiu palavra por palavra o que ela disse.

Eu entendi que naquele momento não havia com quem conversar.

De manhã, no salão, minha mãe preparou um pequeno frasco. Explicou: é um tonalizante lavável para dar brilho no cabelo. Temporário, mas intenso. Ela colocou uma etiqueta nele: “Brilho de Casamento — Tonalizante”.

Minha mãe disse: isso não é crueldade. É consequência. E ela mesma escolherá.

Voltei para a sogra. Disse que fui muito dura ontem. Que não tentei entendê-la — avós querem que as netas pareçam bem nas fotos do casamento. Pedi perdão.

A sogra aceitou o pedido de desculpas imediatamente. Entreguei o frasco — disse que minha mãe mandou do salão, que dá brilho e fica bem na câmera. Que ela aplique à noite, antes da sessão de fotos.

Os olhos da sogra brilharam.

Durante o jantar, a porta da frente se abriu. A sogra entrou de vestido longo e uma echarpe de seda bem enrolada na cabeça. Os cabelos que apareciam na fenda eram de um verde ácido.

Ela gritava que eu estraguei tudo. Que a sessão de fotos do casamento estava marcada para o dia seguinte. Que o noivo agora estava em dúvida — quando ela contou sobre o corte de cabelo, ele disse que ela passou dos limites e que isso colocava em dúvida todo o resto.

Calmamente, coloquei o garfo e disse: é só uma cor. Vai passar. Com o tempo.

Então abri o telefone e enviei para o grupo da família do meu marido as fotos — cachos na cerâmica, tesoura, elástico no chão. Com um adendo: a sogra cortou o cabelo de uma criança doente sem permissão. A menina pediu para parar. É por isso que ela não estará mais com nossa filha sem supervisão.

O chat imediatamente ficou agitado.

Virei-me para o meu marido. Disse: foi ele quem abriu essa porta — quando reclamou com a mãe que o cabelo da filha era difícil de arrumar. Ela veio e “resolveu o problema”. Portanto, agora ele vai fazer o penteado da filha todas as manhãs durante um mês. Sozinho. Completamente — pentear, arrumar, tudo. Ele aprenderá a amar o que era amado nela.

Depois olhei para a sogra. Disse: ela não entrará nesta casa até aprender a respeitar o corpo da minha filha.

Silêncio.

Meu marido olhou para o cabelo verde dela, depois para mim, depois para ela. E pediu para ela ir embora.

À noite, minha filha estava diante do espelho. Disse baixinho: ela já não desgosta tanto do corte curto. Mas pediu ajuda para amá-lo.

Eu disse: vamos resolver isso juntas.

Desta vez ela acreditou.

O que você faria no meu lugar — ficaria em silêncio ou responderia da mesma forma?

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