A minha mãe dizia-me que o meu pai tinha morrido — acreditei nisso durante 10 anos. Depois, vi-o no autocarro com sacos de compras

Tenho 19 anos e quase toda a minha vida acreditei que o meu pai tinha morrido. A minha mãe disse-me isso de forma breve, sem detalhes — quando eu era pequena. Nenhuma lembrança de funeral. Nenhuma explicação. Apenas um assunto encerrado, que a deixava zangada quando eu me atrevia a perguntar.
Tinha apenas uma fotografia dele — encontrei-a acidentalmente na gaveta da cómoda da minha mãe, quando procurava uma meia. Um homem de cabelo escuro e olhos bondosos, com a mão descansando despreocupadamente no ombro da minha mãe. Ele sorria como se tivesse acabado de descobrir algum segredo.
Voltei a essa foto várias vezes. Estudava a forma do nariz, a linha dos lábios, a inclinação da cabeça. Essa era a única versão do meu pai que eu conhecia. Imóvel. Silenciosa. Minha.
Passaram-se dez anos. Parei de fazer perguntas, parei de esperar respostas. Trabalhava numa loja de roupas, fazia cursos, economizava dinheiro. A vida era pequena, mas previsível. Convenci-me de que isso era o suficiente.
Na semana passada, tudo desmoronou.
Viajava de autocarro depois do trabalho — meio adormecida, olhando pela janela. Numa das paragens, entrou um homem com dois sacos de compras. Algo me fez levantar os olhos.
Reconheci-o imediatamente.
Envelhecido. Mais magro. Com cabelos grisalhos e ombros curvados, como se os anos tivessem pesado. Mas aquele era o mesmo rosto. Os mesmos olhos. A mesma inclinação da cabeça, quando procurava um lugar vazio.
O ar saiu dos pulmões de repente. Os dedos agarraram o casaco por si só. A cabeça tentava explicar isso como uma coincidência, cansaço, uma brincadeira da imaginação. Mas o corpo já sabia a verdade.
Os mortos não compram comida. Não entram num autocarro às cinco e meia da tarde. Não ajustam os sacos aos pés com a aparência de quem é esperado em casa.
Levantei-me e fui até ele — as pernas moviam-se antes que eu pudesse pensar. Parei a algumas passadas de distância. De perto, a semelhança já era incontestável. Ele não se parecia com o meu pai. Ele era o meu pai — envelhecido, mas vivo.
Ele levantou os olhos com uma surpresa educada. Eu disse que o confundi com alguém. Ele sorriu e respondeu que tinha um rosto assim — todos o confundem com alguém. Assenti e passei para o fundo do autocarro.
Mas não saí na minha paragem.
Olhei para ele. Contava respirações. Notei como ele esfregava pensativamente uma alça de papel do saco com o dedo. Ele não parecia uma pessoa a esconder-se do passado. Parecia alguém que apenas tenta viver mais um dia.
Quando ele se levantou para sair, eu levantei-me também.
Na calçada, alcancei-o na esquina, quando ele estava a ajeitar os sacos. Pronunciei um nome que ouvi da minha mãe apenas uma vez — por acaso, quando ela pensava que eu estava a dormir.
Ele virou-se. Olhou para mim. Nos olhos — primeiro uma incompreensão, depois algo diferente.
Eu disse que ele era o meu pai. Disse o meu nome e a minha idade.
Os sacos caíram no asfalto. As maçãs rolaram pela calçada. Ele não percebeu.
Sentamo-nos num café em frente. Eu segurava uma chávena de café que nunca bebi e olhava para ele, com medo de desviar o olhar. Disse-lhe que me disseram — ele tinha morrido. Dez anos atrás.
Ele fechou os olhos. «Eu sabia que ela diria isso», disse ele baixinho. — «Só não achei que tu irias encontrar-me algum dia».
A raiva subiu rápida e quente.
Ele contou devagar. Sem drama. Ele e a minha mãe discutiam constantemente — por causa de dinheiro, cansaço, ressentimento acumulado. Ele admitiu que não teve forças para ficar. E não teve a determinação para lutar pela custódia. A minha mãe disse que seria mais fácil — se eu achasse que ele não estava mais por aí. Que assim eu o soltaria mais rápido.
«Eu não soltei», disse. — «Apenas aprendi a viver com isso».
Ele escreveu cartas — eram devolvidas sem serem abertas. Ele ligou — o número foi trocado. Então, decidiu que o silêncio era a resposta definitiva. Convenceu-se de que eu estaria melhor sem ele.
Quando voltei para casa, a minha mãe estava na cozinha. Levantou os olhos quando entrei. Disse-lhe que o tinha visto. O rosto dela ficou pálido. Não negou. Isso foi mais doloroso que qualquer mentira.
A conversa foi alta e há muito atrasada. Ela admitiu tudo. A mentira. A escolha. O medo de que, se eu soubesse a verdade — escolheria ele, não ela. «Eu queria proteger-te», disse ela.
«Tu protegeste a ti mesma», respondi.
Duas semanas depois, mudei-me. Não por raiva — por necessidade. Eu precisava de um espaço onde pudesse construir algo real.
Agora vejo-me com o meu pai nos fins de semana. Falamos de tudo e de nada. Ele conta histórias que ensaiou mentalmente por anos. Eu conto-lhe sobre a minha vida — sobre os estudos, sobre o trabalho, sobre como na infância imaginava que ele estava a olhar para mim em algum lugar.
Somos desajeitados um com o outro. Cuidadosos. Estamos a aprender.
Mas um dia no parque, quando dividíamos batatas fritas, ele riu-se de algo que eu disse. E aquele riso era familiar — eu não consegui explicar como, mas era.
Tenho 19 anos. Descobri que a cura não vem através da mentira — mesmo aquela proferida por amor. Ela vem quando encaramos a verdade, mesmo que doa.
O meu pai está vivo. E aquela parte de mim que eu achava estar perdida para sempre — também.
Se vocês estivessem no meu lugar e descobrissem uma verdade assim — conseguiriam perdoar?




