A madrasta organizou sua festa animada no mesmo dia em que minha mãe faleceu, e isso me deixou profundamente magoada. Eu escolhi uma punição pior para ela, algo que a ensinasse a respeitar minha falecida mãe…

Mamãe morreu de câncer há dois anos. Ela tinha quarenta e nove anos. Tudo aconteceu rápido demais. Na primavera, ainda discutíamos sobre pequenas coisas do dia a dia, e no outono a enfermeira do hospício estava me explicando como administrar seus analgésicos corretamente. Eu a estava segurando pela mão quando ela faleceu.
A melhor amiga dela não surgiu do nada. Ela sempre esteve por perto. Trabalhava com minha mãe, sentava-se na nossa cozinha, bebia nas nossas xícaras, conversava sobre trabalho. Quando minha mãe ficou doente, ela a abraçava e dizia que tudo ficaria bem. Mas às vezes eu percebia um olhar estranho nos olhos da minha mãe quando o nome dela aparecia no telefone. Na época, eu não entendia o que isso significava.
Depois do funeral, meu pai parecia ter parado de viver. Ficava na cozinha com uma xícara vazia e não tomava nada. Sentava-se diante de uma televisão desligada. Eu tentava manter a casa funcionando, mas tudo parecia sem sentido.
Foi então que a amiga começou a vir com mais frequência. Inicialmente, parecia normal. Ela trazia comida, ajudava com a limpeza, conversava com meu pai. Depois, as conversas ficaram mais longas. Ela começou a ficar até tarde da noite. Eu ouvia meu pai rindo. Ele não ria desde o funeral.
Menos de um ano depois, ela se mudou para nossa casa. Depois aconteceu um pequeno casamento no quintal. “Contido e respeitoso”, como disse meu pai. Ela estava de vestido claro e sorria como se tivesse ganhado algo.
Desde o primeiro dia, ela começou a se livrar das coisas da minha mãe. Tirava fotos das paredes, colocava roupas em caixas. Dizia que o luto tem prazo de validade. Que minha mãe não gostaria que ficássemos presos no passado. Um dia, ela tirou de minhas mãos uma antiga xícara da minha mãe e disse que o luto não deveria se transformar em um sofrimento ostensivo.
Eu permaneci em silêncio. Pelo bem do meu pai.
O único lugar onde ela não entrava era o velho galpão nos fundos da casa. Minha mãe guardava ali papéis, pastas e documentos. Tudo estava cuidadosamente rotulado. Ela sempre dizia que o papel era mais confiável do que as pessoas.
Quando o primeiro aniversário de sua morte se aproximou, eu planejei uma noite silenciosa. Uma vela. Uma foto. Silêncio.
Cheguei em casa mais cedo e ouvi música ainda do lado de fora. Havia uma festa na sala de estar. Risadas altas, vinho, estranhos. Nas mãos dos convidados, as taças de cristal de minha mãe, que ela usava apenas em ocasiões especiais.
E a própria madrasta estava vestida com o vestido azul-escuro da minha mãe.
Ela me viu, ergueu uma taça e disse que estávamos celebrando a vida, e não a morte. Que era hora de parar de viver no passado.
Nesse momento, um dos convidados deixou cair uma taça. Depois outro. O cristal se espatifou no chão. Ela deu de ombros e disse que eram apenas objetos.
Algo dentro de mim se tornou frio.
Saí para o quintal e fui em direção ao galpão.
No fundo havia um armário de metal. Mamãe me mostrou uma vez onde estava a chave. Disse que apenas se realmente fosse necessário.
Abri o armário. Dentro havia uma caixa de metal. Dentro dela, documentos.
Mamãe alterou o testamento seis meses antes de morrer. A casa estava em meu nome. Totalmente. E havia uma condição clara: se meu pai casasse com sua amiga, ela não teria nenhum direito sobre a casa. Nem parte. Nem moradia. Nada.
Embaixo do testamento, havia impressões de e-mails. Mensagens entre meu pai e essa mulher antes mesmo de minha mãe ficar muito doente. Encontros, insinuações, conversas. Anotações de minha mãe nas margens. Ela sabia. E mesmo assim permaneceu em silêncio.
Fiz cópias e voltei para a casa.
A música ainda tocava. Fui e desliguei o som. A sala ficou em silêncio.
Entreguei ao meu pai a pasta com os documentos. Ele começou a ler. Primeiro devagar. Depois mais rápido. Seu rosto ficou pálido.
Ela tentou rir. Dizia que aquilo era bobagem. Que eu tinha entendido tudo errado.
Mas assinaturas e carimbos não deixam dúvidas.
Eu disse calmamente que a casa era legalmente minha. E que, depois daquela noite, ela estava ali sem direito de moradia.
As pessoas começaram a arrumar suas coisas rapidamente e a sair. O vinho ficou sobre as mesas. Os cristais quebrados brilhavam no chão.
Duas semanas depois, ela se mudou. Primeiro vieram as lágrimas. Depois as acusações. Tentativas de pressão através de parentes. Mas os documentos estavam ao meu favor.
A casa se tornou silenciosa. Meu pai caminhava pelos cômodos como se os visse pela primeira vez. Às vezes, eu ouvia ele abrindo as caixas no galpão e lendo as anotações de mamãe.
No segundo aniversário, finalmente fiz o que queria desde o início. Coloquei a foto de mamãe na mesa da cozinha. Acendi uma vela. Peguei uma única taça de cristal que não foi quebrada. Derramei um pouco de vinho.
Levantei a taça e disse em voz baixa: “Eu a preservei”.
E pela primeira vez em dois anos, o silêncio na casa não era vazio, mas sim paz.
Sejam sinceros: vocês teriam esperado o momento certo para que a verdade falasse por si mesma, ou teriam feito um escândalo naquela mesma noite?




