Histórias

A madrasta me criou após a morte do meu pai. Anos depois, encontrei uma carta que ele escreveu um dia antes de partir, e tudo o que estava escrito ali virou de cabeça para baixo tudo o que eu sabia sobre o meu passado…

Eu tinha vinte anos quando percebi que vivi toda a vida com meia verdade. Durante quatorze anos, sempre ouvi a mesma coisa: um acidente comum. Chuva. Estrada escorregadia. Ninguém era culpado. E eu acreditava. Eu não tinha motivos para duvidar.

Eu não conheci minha mãe — ela morreu quando eu nasci. Meu pai era tudo para mim. Lembro da sua barba áspera quando ele me jogava para o alto. Lembro como ele me colocava sobre a mesa da cozinha e ria: «O comandante deve ficar mais alto que todos». Quando perguntava sobre a mamãe, ele respondia brevemente, mas com carinho. Eu não entendia por que ele sempre saía para fumar depois disso.

Quando eu tinha quatro anos, uma mulher apareceu em casa. Eu a observava de soslaio. Ela não tentava me agradar, não me abraçava. Apenas se sentava ao meu lado e esperava. Um dia, eu lhe entreguei um carrinho e disse: «Pode ficar?» Esse foi meu jeito de dizer «fique». Seis meses depois, eles se casaram. Ela me adotou oficialmente. Passei a chamá-la de mãe.

Dois anos depois, ela entrou no meu quarto e se sentou na beira da cama. O rosto estava pálido. Disse que papai não voltaria. Tudo o que se seguiu, lembro como se fosse embaixo d’água — casacos pretos, mãos estranhas no meu ombro, cheiro de flores.

A história sempre foi simples. Ele estava voltando do trabalho. Mau tempo. O carro derrapou. Fim.

Eu cresci, fazia perguntas, mas as respostas não mudavam. Depois apareceu o padrasto nas nossas vidas, depois uma irmãzinha. A madrasta nunca fingiu que o pai era o «passado». As fotos dele penduradas na casa. Falavam dele com tranquilidade. Eu me sentia amado.

Mas um detalhe sempre me intrigava. Um álbum de fotos antigo. Antes ficava na sala, depois desapareceu. Quando eu o mencionava, a mamãe dizia que guardou para não se estragar.

Aos vinte anos, subi ao sótão à procura de outra coisa e encontrei uma caixa. Dentro — o álbum. Sentei no chão e comecei a folhear. Pai jovem. Feliz. Foto na maternidade — ele me segurando nos braços. O rosto dele tinha uma expressão como se tivesse ganhado tudo de uma vez e ao mesmo tempo estava assustado.

Tirei essa foto do compartimento transparente. Junto com ela, caiu uma folha de papel dobrada. Nela estava escrito meu nome com a letra dele.

A carta foi datada um dia antes do acidente.

Eu lia e não acreditava. Ele escrevia que ultimamente estava trabalhando demais. Que eu, na semana passada, perguntei por que ele sempre estava cansado. Que isso o atingiu mais do que ele demonstrou. Então amanhã ele sairia mais cedo do trabalho. Sem desculpas. Faríamos panquecas. Ele me deixaria colocar chocolate demais. E ele planejava escrever cartas — uma para cada momento importante da minha vida, para que eu nunca duvidasse que fui amado.

O acidente aconteceu à tarde.

Me disseram que ele estava apenas voltando do trabalho pelo caminho de sempre.

Mas ele não estava «apenas voltando». Ele estava correndo para mim. Saindo mais cedo. Por mim.

Desci com essa carta. Mamãe estava na cozinha com minha irmã. Ela entendeu imediatamente pela minha expressão. Quando perguntei por que ela escondeu isso, ela ficou em silêncio por um longo tempo.

Então ela disse: naquele dia chovia muito. A estrada estava horrível. Papai ligou para ela do escritório e disse que sairia mais cedo para me fazer uma surpresa. Pediu que não contasse a ninguém. Ela me olhou e perguntou: o que eu deveria dizer a um garoto de seis anos? Que papai morreu porque não conseguia esperar para te ver? Você teria vivido com isso para sempre.

Eu queria contestar. Dizer que tinha o direito de saber. Mas imaginei-me pequeno. Imaginei ouvir: «Ele estava correndo para você». E eu entendi.

Ela não escondeu a verdade. Ela escondeu a culpa que eu mesmo teria inventado.

Sentei ao lado dela. Ela disse: seu pai não morreu por sua causa. Ele morreu porque te amava e queria estar com você. São coisas diferentes.

Chorei diante dela pela primeira vez em muitos anos. Não como um adulto. Como aquele mesmo garoto sobre a bancada da cozinha.

Agora eu sei: ele morreu me amando. E ela me protegeu por quatorze anos do pensamento de que na morte dele havia qualquer responsabilidade minha.

Sejam sinceros: vocês conseguiriam perdoar uma pessoa que escondeu a verdade de vocês por anos se fez isso para protegê-los de um sentimento de culpa?

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