A madrasta deu uma festa no aniversário da morte da minha mãe — e eu encontrei uma punição pior que a polícia

Minha mãe morreu de câncer. Tudo aconteceu muito rápido — em questão de meses, passamos de uma lista de tratamentos para os cuidados paliativos. Eu segurei a mão dela no momento final.
Uma amiga próxima dela — uma colega de trabalho que conheço desde criança — aparecia em nossa casa ainda quando minha mãe estava viva. Ela sentava à nossa mesa da cozinha, bebia das nossas xícaras, abraçava minha mãe após o diagnóstico e dizia que ela certamente venceria a doença. Minha mãe sorria em resposta, mas um vislumbre de preocupação sempre passava por seus olhos quando se tratava daquela mulher.
Após o funeral, meu pai parecia perdido. E a amiga da minha mãe começou a aparecer — com comida, apoio, ligações à noite em silêncio. Menos de um ano depois, ela já estava morando conosco. Alguns meses depois, eles se casaram — um casamento discreto no jardim, «em respeito», como explicou meu pai.
Desde o primeiro dia, ela se empenhou em apagar tudo que lembrava mamãe. Tirava as fotos, guardava as coisas em caixas, dizia que o luto tinha prazo de validade e que minha mãe não gostaria de nos ver presos ao passado. Certo dia, ela tirou das minhas mãos a caneca favorita da mamãe, que estava rachada, e colocou na prateleira de cima — onde eu não alcançaria.
O único lugar onde ela nunca ia era o velho barracão atrás da casa. Minha mãe o usava como espaço pessoal — lá estavam seus papéis, pastas, caixas de documentos. A madrasta o chamava de «depósito deprimente» e dizia que lá dentro era impossível respirar. Isso a salvou — da verdade que ela não conhecia.
No primeiro aniversário da morte da mamãe, eu planejava passar a noite quieta. Uma vela, uma foto, uma taça de vinho — apenas eu e a memória dela.
Cheguei em casa do trabalho mais cedo e ouvi a música mesmo estando na rua. Havia uma festa na casa. Colegas da madrasta, pessoas que eu não conhecia, risadas, garrafas abertas. E nas mãos dos convidados — as taças de cristal da mamãe. As mesmas que ela guardava para ocasiões especiais e dizia que me deixaria.
A madrasta levantou a taça e disse que decidiram fazer uma «festa da vida» em vez de um «deprimente aniversário». Enquanto eu estava na porta, duas taças caíram no chão e se quebraram — um convidado riu, a madrasta deu de ombros: dizia que eram apenas objetos, sem razão para se apegar.
Então vi os vestidos. A madrasta estava com o vestido azul-marinho favorito da mamãe. A amiga dela — com o verde que minha mãe usou na minha formatura. Elas giravam, e o vinho respingava no tecido.
Cheguei perto e pedi que parassem. A madrasta se inclinou e disse baixinho: ela está aqui, e mamãe não está mais. E se isso é difícil para mim aceitar — talvez o problema esteja em mim.
Virei-me e fui para o barracão.
Lá dentro, o cheiro de papel velho e do perfume da mamãe — apenas um traço, mas presente. No armário de metal, no fundo, havia uma caixa com cadeado. Mamãe uma vez me mostrou a chave: «Apenas se realmente precisar».
Eu abri.
Lá dentro, não havia fotos nem cartas. Apenas documentos. Registros impressos de conversas, páginas com anotações da mamãe nas margens. Comentários sobre como a amiga se comportou logo após o diagnóstico, como se interessou pela casa, como rapidamente fez amizade com meu pai.
E embaixo deles — documentos jurídicos. Alguns meses antes de morrer, mamãe mudou seu testamento. A casa não ficaria para o papai — ela passaria para mim. Com uma condição: se papai se casasse com aquela mulher, ela não teria nenhum direito sobre a casa. Nenhum.
Ela conhecia o testamento antigo. O novo ela nunca viu.
Tirei fotos de tudo e enviei para o advogado da mamãe.
Depois voltei para a casa, fui até o aparelho de som e desliguei a música.
O silêncio cortou os ouvidos. Fui até o papai e entreguei-lhe um envelope com as impressões. Enquanto lia, seu rosto ficou pálido. A madrasta tentou pegar os papéis — papai os cobriu com a mão e se levantou.
Em poucos minutos, os convidados começaram a sair em silêncio.
A madrasta gritava, me acusava de manipulação, dizia que eu era exatamente como minha mãe. Eu respondi apenas uma coisa: mamãe apenas a conhecia bem.
Duas semanas depois, a madrasta não estava mais na casa. Sem escândalos com a polícia — apenas uma notificação oficial do advogado e um prazo claro de saída. Ela chorou, disse que nos deu tudo, ligou para parentes. Mas papéis não temem lágrimas.
No segundo aniversário, eu fiz o que planejava fazer um ano antes. Imprimi uma foto da mamãe — aquela em que ela ria até chorar. Acendi uma vela. Tirei do armário uma das taças de cristal sobreviventes, embrulhadas em papel. Coloquei vinho. Sentei.
A casa não era nem museu, nem lugar para festas. Simplesmente era nossa de novo.
E vocês já descobriram algo importante sobre uma pessoa querida apenas depois que ela se foi?




