Histórias

Depois de anos a viver sozinha, deixei um homem entrar na minha casa, mas bastaram duas semanas para perceber que ele não queria uma companheira, queria conforto sem esforço

Tenho cinquenta e nove anos e vivo em Coimbra, num apartamento pequeno perto de uma rua calma, onde de manhã se ouvem autocarros e à tarde os vizinhos falam da janela. Depois do divórcio, este apartamento tornou-se o meu lugar seguro. Não é moderno, não é grande, mas cada coisa ali tem o seu valor. A mesa da cozinha foi comprada em prestações. As cortinas fui eu que escolhi. As plantas da varanda sobreviveram comigo a anos bons e maus.

Passei cerca de quinze anos sozinha. No início custou-me muito. Havia noites em que chegava a casa e o silêncio parecia entrar-me pelos ossos. Mais tarde habituei-me. Depois aprendi a gostar dele. A solidão deixou de ser uma ferida aberta e tornou-se uma espécie de ordem. Eu sabia onde estavam as minhas coisas. Sabia quanto gastava. Sabia que, se a cozinha estivesse suja, era porque eu a tinha usado. E sabia que ninguém me ia criticar, mandar ou ficar ofendido por eu pedir o mínimo.

Trabalho num lar de idosos. É um trabalho duro, daqueles que não aparecem nas fotografias bonitas. Há fraldas, medicamentos, chamadas, idosos que choram pela mãe, pessoas que já não reconhecem os filhos. Há dias em que saio de lá com as costas partidas e uma tristeza colada ao peito. Quando chego a casa, quero apenas lavar as mãos, tomar banho, comer qualquer coisa simples e sentar-me cinco minutos sem ouvir pedidos.

Conheci o António numa festa de aniversário de uma vizinha. Ele era da minha idade, divorciado, bem vestido, calmo. Falava com educação e tinha aquele ar de homem que já passou por muito e não quer confusão. A princípio não pensei em nada. Mas ele pediu o meu número, começou a mandar mensagens, convidou-me para tomar café. Dizia que eu tinha uma forma serena de falar, que era raro encontrar uma mulher assim.

Aos poucos, fui deixando que ele se aproximasse. Íamos passear junto ao Mondego, tomávamos café numa pastelaria pequena, conversávamos sobre filhos, trabalho, doenças, contas, coisas normais de pessoas que já não têm vinte anos. Ele contava que vivia num quarto arrendado, que o senhorio era complicado, que não se sentia em casa. Dizia muitas vezes que, nesta idade, o pior não era estar sem paixão, mas sem ternura.

Essas palavras mexeram comigo. Eu não queria admitir, mas às vezes também me faltava ternura. Não um grande romance, não promessas bonitas, mas alguém que perguntasse se eu tinha comido, se estava cansada, se precisava de alguma coisa.

Quando António sugeriu que tentássemos viver juntos, disse logo que não queria ser um peso. Que podia ajudar, que podíamos dividir as coisas, que duas pessoas maduras sabem conversar. Eu hesitei. A minha casa era minha. O meu descanso era meu. Mas talvez, pensei eu, a vida ainda pudesse oferecer uma companhia decente.

Ele mudou-se num sábado. Trouxe duas malas, uns sapatos, medicamentos e uma moldura com uma fotografia da filha. No primeiro dia trouxe também pastéis de nata. Disse que a minha casa tinha cheiro de casa a sério. Aquilo tocou-me. Preparei jantar, pus dois pratos na mesa e senti uma coisa que já não sentia há muito tempo: a ilusão de que talvez fosse bom não estar sozinha.

Durante os primeiros dias, tudo pareceu correr bem. Ele agradecia a comida, elogiava o meu café, perguntava como tinha sido o trabalho. Eu levantava-me cedo, deixava-lhe o pequeno-almoço preparado e ia para o lar. Ao voltar, encontrava-o na sala, tranquilo, como se aquele lugar sempre tivesse sido dele. Ao princípio isso até me pareceu bonito.

Depois começou a incomodar.

Primeiro foram as chávenas. Uma na mesa, outra no parapeito da janela, outra ao lado do sofá. Depois os pratos. Depois a roupa. As meias ficavam no quarto, a toalha molhada na casa de banho, migalhas na cozinha. Eu dizia com calma: „António, podes arrumar isto?“ Ele sorria e respondia que ainda não sabia onde eu guardava as coisas.

Expliquei uma vez. Expliquei duas. À terceira, percebi que não era falta de informação.

Quando eu chegava cansada, ele perguntava: „Dia difícil?“ Mas não se levantava para aquecer sopa. Não punha a mesa. Não lavava uma colher. A minha exaustão era visível, mas não o movia.

Ao fim de uma semana, a minha rotina tinha duplicado. Mais compras, mais roupa, mais loiça, mais lixo. Pedi-lhe para ir ao supermercado comprar leite, pão e fruta. Voltou com pão, cerveja sem álcool e um jornal. Esqueceu-se, disse ele. Pedi-lhe para levar o lixo. Esqueceu-se. Pedi-lhe para limpar o lavatório depois de se barbear. Ficou ofendido.

„Parece que estou sempre a ser avaliado.“

Não o estava a avaliar. Estava a pedir respeito.

Um domingo, depois de eu ter cozinhado para vários dias, ele comeu, elogiou o arroz de pato e levantou-se da mesa deixando o prato ali. Eu olhei para aquele prato durante alguns segundos. Era só um prato, sim. Mas atrás dele havia anos de mulheres a ouvirem que um prato não custa nada, uma máquina de roupa não custa nada, limpar o chão não custa nada. Tudo não custa nada quando não és tu a fazer sempre.

Dias depois, pedi-lhe para limpar as janelas da sala. As minhas costas doíam muito por causa do trabalho. Ele respondeu sem hesitar:

„Isso é trabalho de mulher.“

Fiquei parada. Não gritei. Não chorei. Só senti uma clareza fria dentro de mim. Aquele homem não tinha vindo para partilhar vida. Tinha vindo para ocupar o lugar confortável de quem é servido.

Na segunda semana, voltei a casa depois de um turno particularmente pesado. A cozinha estava desarrumada, havia pão aberto, uma frigideira suja e cascas de fruta no prato. António estava sentado a ver televisão.

Disse-lhe que precisávamos de falar. Falei devagar, porque não queria transformar aquilo numa discussão. Disse que eu trabalhava, que me cansava, que a casa não se cuidava sozinha. Disse que, se ele vivia comigo, tinha de participar.

Ele ouviu-me com uma expressão quase aborrecida. Depois encostou-se na cadeira e disse:

„Mas esta casa não é minha. Eu aqui sou só hóspede.“

A palavra ficou no ar como uma bofetada.

Hóspede? Ele dormia na minha cama, comia a minha comida, usava a minha água, a minha luz, a minha máquina de lavar, o meu sofá, a minha paciência. Mas, quando chegava a hora de fazer alguma coisa, era hóspede.

Ainda acrescentou que não ia comprar nada para a casa porque o apartamento era meu. Que essas coisas eram responsabilidade minha.

Foi nesse momento que a minha pena acabou.

Levantei-me, fui buscar uma das malas dele e coloquei-a no corredor. António olhou para mim sem perceber.

„O que estás a fazer?“

„A ajudar-te a deixar de ser hóspede aqui.“

Ele zangou-se. Disse que eu era ingrata, que mulheres da minha idade já não deviam ser tão exigentes, que eu ia acabar sozinha. Talvez esperasse que eu tivesse medo. Mas eu já conhecia a solidão. E ela era muito mais leve do que aquela presença.

Quando ele saiu, fechei a porta e fiquei alguns segundos no corredor. Depois lavei a cozinha, fiz chá e sentei-me à janela. O apartamento estava silencioso. Mas era um silêncio limpo.

Hoje continuo sozinha. Mas quando volto do trabalho, a minha casa espera por mim como eu a deixei. Não há pratos que não são meus, não há roupas espalhadas, não há frases que me diminuem. E, sobretudo, não há ninguém a chamar-se hóspede enquanto vive do meu esforço.

Às vezes dizem que uma mulher, depois de certa idade, deve agarrar qualquer companhia. Eu já não concordo. Companhia sem cuidado é peso. E peso eu já carreguei demais.

E você, o que acha: ela fez bem em mandá-lo embora depois de apenas duas semanas, ou deveria ter aguentado mais só para não voltar a viver sozinha?

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