Família

Durante vinte anos da minha vida dediquei-me a criar dois meninos que não levavam o meu sangue, sem que ninguém me exigisse isso, sem que nenhum papel me obrigasse a fazê-lo

Eu criei sozinha os gémeos do meu falecido marido, do primeiro casamento dele, e quando os rapazes fizeram dezoito anos, fizeram algo por que ainda choro até hoje…

Chamo-me Cristina e tenho cinquenta e um anos. Vivo em Setúbal, na mesma casa onde tenho vivido nos últimos vinte anos, desde que casei com o Vítor, um homem viúvo com dois filhos pequenos, os gémeos Rui e Tiago, que então tinham quatro anos. A mãe deles, Helena, tinha morrido de cancro apenas alguns meses antes de eu conhecer o Vítor, deixando-o destroçado e sozinho com dois meninos pequenos que apenas entendiam por que a mãe deles já não estava ali.

Nunca pretendi ocupar o lugar da Helena. Desde o início deixei clara uma coisa, tanto ao Vítor como aos meninos enquanto cresciam: eu não estava ali para substituir ninguém, apenas para estar presente, para fazer o que fosse necessário. Levava-os à escola, preparava-lhes a comida, cuidava deles quando tinham febre, ia a todas as reuniões escolares, aprendi a fazer-lhes tranças quando tinham piolhos, chorei com eles cada vez que algo lhes doía, e pouco a pouco, sem que ninguém o planeasse, tornei-me a mãe deles em todos os sentidos que importam, embora nunca tivéssemos deixado de falar da Helena, de olhar para as fotos dela, de mantê-la presente nas nossas conversas de forma natural.

O que poucos sabiam, nem mesmo os próprios rapazes até há pouco tempo, é que eu não podia ter filhos biológicos. Um problema médico descoberto anos antes de conhecer o Vítor tinha fechado essa porta para mim, e durante muito tempo pensei que nunca saberia o que era criar um filho. O Rui e o Tiago, sem o saberem então, preencheram esse vazio de uma forma que nunca poderei agradecer suficientemente.

O Vítor morreu há seis anos, de um enfarte súbito enquanto conduzia de volta do trabalho, deixando-me viúva com dois adolescentes de doze anos a meu cargo. Legalmente não era a mãe deles, não havia nenhuma obrigação que me ligasse a eles, e lembro-me de que alguns familiares do Vítor, com boa intenção, me sugeriram que talvez fosse melhor para os rapazes viverem com a tia materna, irmã da Helena, que tinha mais recursos económicos. Nunca considerei essa opção nem por um segundo. Eram os meus filhos, com papéis ou sem eles, e assim continuei, trabalhando turnos duplos na clínica onde sou enfermeira para os criar.

O Rui e o Tiago fizeram dezoito anos há três semanas, um sábado de maio. Tínhamos planeado um jantar simples em casa, nada extravagante, porque nunca tivemos muito dinheiro para grandes celebrações. Depois de soprarem as velas, quando já estávamos a arrumar a mesa, o Rui pediu-me que me sentasse, que tinham de falar comigo sobre algo importante.

Senti um nó no estômago, pensando que talvez se tratasse de planos para saírem de casa, para estudarem longe, algo que sabia que teria de enfrentar tarde ou cedo.

— Cristina —começou o Tiago, usando o meu nome, como faziam sempre, embora para eles eu fosse mãe em tudo menos no papel—, há meses que andamos a falar disto os dois. Sabemos que tu querias ter filhos teus, que não pudeste, e que mesmo assim nos deste tudo o que uma mãe dá aos seus filhos biológicos, sem pedir nada em troca.

O Rui continuou, já com os olhos brilhantes.

— Investigámos, falámos com uma assistente social. Há uma casa de acolhimento aqui em Setúbal, com meninas pequenas à espera de uma família. Queremos que venhas connosco conhecê-las, sem compromisso, só para as veres. E se sentires que queres avançar com o processo de acolhimento ou adoção, nós vamos ajudar-te, com dinheiro, com tempo, com o que for preciso. Já somos maiores de idade, já podemos trabalhar, podemos contribuir de verdade. Queremos que tenhas a oportunidade de ser mãe desde o início, como nós sentimos que tu foste a nossa, mesmo que os papéis não o dissessem.

Não consegui dizer nada durante um bom tempo. As lágrimas caíram-me sem que conseguisse evitá-lo, e os dois aproximaram-se para me abraçar, desajeitados como sempre foram a mostrar afeto, aqueles dois rapazes altos que em pequenos adormeciam cada um agarrado a um dos meus braços.

Na semana seguinte fomos juntos à casa de acolhimento. Conheci várias meninas, mas houve uma, a Joana, de três anos, com um olhar sério que me recordou, não sei bem porquê, o olhar que o Rui e o Tiago tinham quando os conheci, dois meninos pequenos que tinham perdido demasiado cedo alguém que os amava.

Começámos o processo de acolhimento. Ainda não sei como vai terminar, os trâmites são longos e cheios de incerteza, mas pela primeira vez em muitos anos volto a sentir aquela mistura de medo e esperança que só se sente quando se começa a construir uma família.

O que mais me emociona, quando penso nisso à noite, não é a possibilidade de ter a Joana com a gente. É que os meus próprios filhos, os que criei sem que o sangue nos unisse, tenham pensado em mim desta forma, tenham querido devolver-me, à sua maneira, tudo o que tentei dar-lhes sem esperar nada em troca.

E vocês, teriam imaginado algo assim vindo de filhos que não são biológicos? Acham que a família que se escolhe, dia após dia, com os atos, pode chegar a pesar mais do que aquela que vem dada pelo sangue?

Se esta história vos tocou, partilhem-na com as vossas pessoas queridas.

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