A minha filha pediu que eu não contasse a ninguém que estava à procura de trabalho — duas semanas depois, o chefe dela ligou-me e eu fiquei sem palavras

A minha filha ligou-me numa sexta-feira à noite. Falava baixinho — quase em sussurro, embora estivesse sozinha em casa. Disse que queria sair do emprego atual. Já andava a pensar nisso há muito tempo. Já tinha enviado currículos. Pediu-me que não contasse a ninguém — nem ao meu genro, nem às amigas, e muito menos a ninguém do trabalho dela. Disse que ela própria contaria tudo quando houvesse algo para contar.
Eu disse — está bem, fico calada.
A minha filha trabalha numa grande empresa há oito anos. Tem um bom cargo, um bom salário. Nunca entrei nos detalhes do trabalho dela — ela não gosta quando lhe fazem perguntas. Eu só sabia que estava cansada, que havia muita pressão e que este último ano tinha sido especialmente difícil.
Durante duas semanas, fiquei calada. Às vezes, a minha filha mencionava — houve uma entrevista, parece que correu bem. Eu ouvia sem fazer mais perguntas.
No décimo quinto dia, recebi uma chamada de um número desconhecido. Voz de homem — segura, profissional. Identificou-se. Disse que era o superior da minha filha — mencionou o cargo dela, o nome dela, tudo certo. Disse que ligava por um assunto importante.
Fiquei alerta. Disse — estou a ouvir.
Ele perguntou — sabe o que tem acontecido com a sua filha ultimamente? Ela está a passar por alguma dificuldade pessoal? Não estará doente?
Eu não percebia onde ele queria chegar. Perguntei — e porque me está a perguntar isso?
Ele disse — porque, nas últimas duas semanas, a sua filha tem-se comportado de forma estranha. Sai mais cedo. Tira baixas médicas. Anda distraída nas reuniões. Estou preocupado. Pergunto-lhe, como mãe — está tudo bem com ela?
Fiquei sentada com o telefone na mão, em silêncio.
Percebi apenas uma coisa — ele não sabia que ela estava à procura de trabalho. Achava que ela tinha problemas pessoais. E ligou-me para que eu esclarecesse a situação.
Eu disse — tanto quanto sei, está tudo bem com ela. Se está preocupado com o estado dela, talvez seja melhor falar diretamente com ela.
Ele agradeceu. Desligou.
Liguei imediatamente à minha filha.
Ela atendeu depressa. Eu disse — o teu chefe acabou de me ligar. Perguntou por ti.
Silêncio durante uns quatro segundos.
Depois disse — o que é que ele perguntou, exatamente?
Contei-lhe a conversa. Ela ouviu em silêncio.
Depois disse — ele não devia ter-te ligado. Onde foi ele buscar o teu número?
Boa pergunta. Eu não fazia ideia de onde ele tinha o meu número. Nos documentos do trabalho dela? Nalgum formulário? Ela também não percebia.
Perguntei — o que se passa no trabalho? Porque é que tens saído mais cedo e tirado baixas médicas?
Ela ficou em silêncio. Depois disse — tive entrevistas. Durante o horário de trabalho. Dizia que estava doente.
Entrevistas em horário de trabalho, com baixas médicas como cobertura. O chefe reparou. Ligou à mãe dela.
Perguntei — ele desconfia que estás à procura de trabalho?
Ela disse — não sei. Talvez.
Eu disse — então tens de falar com ele antes que ele perceba sozinho. Caso contrário, vais sair mal — e oito anos contam para a reputação.
Ela ficou em silêncio.
Depois perguntou — vais contar ao meu marido?
Eu disse — não. Tu pediste-me para ficar calada — e eu fico. Mas fala com o teu chefe. Hoje ou amanhã.
Ela ligou-me no dia seguinte. Disse que tinha falado com o chefe. Honestamente — disse-lhe que estava a considerar outras propostas. Ele ouviu-a. Propôs uma reunião na semana seguinte — para discutir as condições. Quer mantê-la na empresa.
Perguntei — como estás?
Ela disse — mais leve. Já devia ter falado claramente há muito tempo.
Duas semanas depois, tomou uma decisão — ficou. O chefe aumentou-lhe o salário e alterou as condições. Ela diz que, por enquanto, vai tentar.
Talvez fique. Talvez, daqui a um ano, volte a procurar.
Mas foi ela própria que teve aquela conversa com o chefe. Sem escândalo, sem ressentimento.
Não lhe pedi mais detalhes. Ela contará quando achar que é o momento.
O meu genro nunca chegou a saber que ela andava à procura de trabalho. A minha filha disse — não fazia sentido contar, já que não saiu.
Talvez seja assim.
Digam-me com sinceridade — fiz bem em aconselhar a minha filha a falar diretamente com o chefe, ou devia ter deixado que ela resolvesse isso sozinha?




