O vizinho me pediu para cuidar do cachorro enquanto ele estava no hospital — uma semana depois, por acaso descobri onde ele realmente estava

O vizinho mora em frente — estamos no mesmo andar há nove anos. Uma convivência normal de vizinhos — nos cumprimentamos, às vezes ajudamos um ao outro com pequenas coisas. Ele é um senhor de uns setenta anos. Mora sozinho. O cachorro dele é pequeno e ruivo — eu o conheço desde filhote.
Na segunda-feira passada ele bateu à minha porta de manhã. Parecia cansado. Disse que ia ser internado no hospital — uma cirurgia programada, nada grave. Pediu que eu cuidasse do cachorro. Alimentar duas vezes por dia, passear de manhã e à noite. Deixou a chave do apartamento, um pacote de ração e um bilhete com a rotina.
Eu concordei. Claro — o homem é sozinho, o que mais poderia fazer.
Ele foi embora com uma bolsa pequena. Eu comecei a ir até o cachorro dele — duas vezes por dia, como combinamos. No começo o cão sentia falta do dono, mas se acostumou rápido. Eu tentava fazer passeios mais longos para que ele não ficasse triste.
No quarto dia, encontrei no térreo a vizinha do segundo andar. Quase nunca conversamos, mas ela me parou — perguntou se eu tinha visto o vizinho da frente. Disse que queria devolver a ele um livro que havia pegado emprestado havia muito tempo.
Eu disse — ele está no hospital, me pediu para cuidar do cachorro.
Ela se surpreendeu. Disse — no hospital? Estranho. Eu o vi ontem à noite perto da loja na rua ao lado. Ele estava comprando mantimentos. Parecia normal.
Eu parei.
Ontem à noite. Perto da loja. Comprando mantimentos.
Eu disse — provavelmente a senhora se enganou. Ele foi embora na segunda-feira.
Ela respondeu — não, eu o conheço bem. Era com certeza ele. Com a jaqueta azul — aquela que ele sempre usa.
Nos despedimos.
Subi para o meu apartamento. Coloquei a chaleira no fogo. Fiquei sentada à mesa.
Jaqueta azul. Ele foi embora na segunda-feira com a jaqueta azul — eu mesma vi.
Ou a vizinha estava enganada. Ou ele não estava no hospital.
Não esperei. Liguei para o número que ele tinha deixado — caso acontecesse alguma coisa com o cachorro. O número estava indisponível.
Escrevi uma mensagem — apenas dizendo que estava tudo bem, que o cão estava bem. Não foi entregue.
Peguei a chave do apartamento dele. Entrei para alimentar o cachorro, como de costume. O cão me recebeu todo feliz — já tinha se acostumado.
Olhei em volta.
No apartamento, tudo estava como sempre — limpo, arrumado, nada fora do lugar. Mas sobre a mesa da cozinha havia um jornal. Recente — olhei a data. De ontem.
Um jornal de ontem. No apartamento de uma pessoa que está há uma semana no hospital.
Coloquei o jornal de volta. Alimentei o cão. Saí.
Naquela mesma noite, contei tudo ao meu marido. Ele ouviu. Disse — talvez outra pessoa tenha entrado. Parentes.
Eu disse — ele falou que mora sozinho. Que não tinha a quem pedir.
Meu marido disse — vamos ver. Talvez ele apareça.
No dia seguinte entrei de novo para ver o cachorro. Não havia jornal novo. Mas no lixo da cozinha havia a embalagem de um pão — datada daquela mesma manhã. Percebi por acaso quando joguei fora o sachê de ração usado.
Daquela mesma manhã.
Saí do apartamento. Fiquei parada no corredor.
A porta dele fica em frente à minha. Há nove anos somos vizinhos. Ele me pediu para cuidar do cachorro enquanto estivesse no hospital. Me deu a chave, deixou a ração, escreveu a rotina. Foi embora com uma bolsa.
E, no entanto, alguém entrava todos os dias no apartamento dele, lia jornais recentes e comprava pão.
Liguei para o policial do bairro. Não porque eu tivesse certeza de que havia algo errado. Mas simplesmente porque eu não sabia o que fazer com o que sabia.
O policial veio no mesmo dia. Contei tudo — a vizinha, o jornal, o pão, o número indisponível.
Ele ouviu. Pediu a chave. Entrou no apartamento — eu esperei no corredor.
Saiu dez minutos depois. Disse que o apartamento estava em ordem. Que tentaria localizar o vizinho por outros meios.
Dois dias depois, o vizinho apareceu por conta própria.
Bateu à minha porta — vivo, bem, com a mesma jaqueta azul. Pediu que eu devolvesse a chave. Disse que tinha recebido alta antes do previsto. Que tinha se esquecido de avisar. Que agradecia pelo cachorro.
Eu perguntei — e os jornais? E o pão?
Ele olhou para mim. Ficou em silêncio.
Depois disse — meu sobrinho passou lá. Verificou o apartamento. Eu pedi.
Um sobrinho que não existe, porque ele mora sozinho e não tem a quem pedir.
Devolvi a chave. Disse — por nada.
Ele pegou o cachorro. Fechou a porta.
Fiquei parada no corredor pensando — o que foi aquilo. Por que ele precisou sumir por uma semana, deixando o cachorro comigo. Onde ele esteve. Por que não podia simplesmente dizer a verdade.
Eu não sei. Ele não explicou. E eu não perguntei mais.
Mas, desde então, quando ele diz alguma coisa — eu escuto de um jeito um pouco diferente de antes.
Sejam sinceros — eu fiz certo em ligar para o policial do bairro, ou deveria ter esperado primeiro até que o vizinho aparecesse por conta própria?




