Histórias

Meu marido disse que ia pescar — por acaso vi o carro dele em frente a uma casa desconhecida e comecei a entender tudo

Meu marido vai pescar a cada dois sábados. É uma tradição antiga — desde a época em que as crianças eram pequenas. Os amigos, a saída cedo, a garrafa térmica com café, as canas de pesca no porta-malas. Sempre encarei isso com tranquilidade. O tempo dele, o descanso dele.

Naquele sábado ele saiu como de costume. Às seis da manhã. Beijou-me na bochecha, eu me virei e voltei a dormir.

Durante o dia fui ao mercado — em outro bairro, mais longe de casa, porque lá a variedade é melhor. Ia por uma rua desconhecida, cortando caminho pelos pátios entre os prédios.

E vi o carro dele.

A perua prateada — a nossa. Estava parada em frente a um prédio antigo de cinco andares. Reconheci na hora — pela amassado no para-choque traseiro que meu marido já faz dois anos que nunca arranja tempo para consertar.

Passei direto. Parei vinte metros adiante.

Fiquei sentada olhando pelo espelho retrovisor.

O nosso carro. Em frente a uma casa desconhecida. À uma da tarde de sábado, quando meu marido deveria estar no rio, a quarenta quilômetros dali.

Dei a volta. Cheguei mais perto. Estacionei em frente, de modo que pudesse ver a entrada do prédio e o carro.

Fiquei sentada esperando.

Nos primeiros dez minutos, tentei me convencer de que havia uma explicação. Foi visitar algum amigo. Comprar alguma coisa. Resolver algum assunto. Isso acontece.

Depois de vinte minutos, as explicações já pareciam menos convincentes.

Depois de quarenta minutos, a porta do prédio se abriu.

Meu marido saiu. Atrás dele — uma mulher. Devia ter uns cinquenta anos. Eu não a conhecia. Eles pararam na entrada do prédio e conversaram — eu não conseguia ouvir. Depois ela disse alguma coisa e ele riu. Ela pousou a mão no ombro dele por um segundo. Depois voltou para dentro do prédio.

Ele foi até o carro. Entrou. Foi embora.

Fiquei sentada vendo o carro dele desaparecer na curva.

Depois fiquei olhando para a porta do prédio por onde a mulher tinha desaparecido.

Fiquei uma hora parada em frente àquela casa. Vi o que vi — dois ou três minutos na entrada do prédio, a mão no ombro, o riso.

Talvez isso não significasse nada. Talvez fosse uma colega, uma conhecida antiga, uma vizinha de outra fase da vida. Talvez eu estivesse imaginando coisas.

Mas ele disse que ia pescar.

Fui até o mercado. Peguei o que precisava. Voltei para casa. Preparei o jantar.

Meu marido chegou às seis da tarde. Com as canas de pesca — elas realmente estavam no porta-malas, eu ouvi o barulho delas batendo. Com cheiro de fogueira — de verdade. Contou sobre a pescaria, sobre o tempo, sobre o fato de o Mark ter pescado um lúcio.

Eu ouvi. Punha a mesa.

Não disse nada.

À noite, quando ele adormeceu, fiquei deitada no escuro, pensando.

No que eu tinha visto. No que aquilo podia significar. No que eu deveria fazer com o que tinha visto.

Na manhã seguinte, fiz algo que nunca tinha feito em vinte e seis anos de casamento.

Peguei o telefone dele enquanto ele estava no banho.

Não fiquei vasculhando por muito tempo — apenas abri as chamadas recentes. Um número se repetia com frequência. O nome salvo nos contatos era — Trabalho.

Mas eu sei como os contatos de trabalho dele são salvos — sempre com nome e sobrenome ou com o nome da empresa. Apenas a palavra Trabalho ele nunca usa.

Memorizei o número. Coloquei o telefone de volta no lugar.

Meu marido saiu do banho e perguntou o que tinha para o café da manhã. Eu disse — vou fazer ovos mexidos. Ele respondeu — ótimo.

Tomamos café da manhã. Falamos sobre os planos para a semana, sobre os filhos, sobre pequenas coisas do dia a dia.

Tudo estava como sempre.

Só que agora eu sabia algo que não sabia na sexta-feira. E ainda não sabia o que fazer com esse conhecimento.

Dois dias depois, liguei para aquele número.

Uma mulher atendeu. Eu disse o nome do meu marido e perguntei — a senhora o conhece?

Houve uma pausa de uns três segundos.

Depois ela disse — sim, conheço. E a senhora, quem é?

Eu disse — sou a esposa dele.

As palavras que ela disse em seguida viraram de cabeça para baixo tudo o que eu pensava sobre esse homem e sobre os nossos vinte e seis anos juntos.

Seja sincero — fiz certo em ligar diretamente para essa mulher ou primeiro eu deveria ter conversado com o meu marido?

Seja sincero — fiz certo em ligar de volta para a empresa ou a amizade valia a pena para eu ficar calada?

 

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