Encontrei um brinco de outra mulher no carro do meu marido e fiquei em silêncio. Seis meses depois, ele parou de se esconder e disfarçar, e naquela manhã eu decidi por uma ação que eu temia mais que tudo…

Encontrei o brinco no carro do meu marido há seis meses. Pequeno, de pérola, preso entre o banco e o console. Peguei, examinei à luz e cuidadosamente coloquei de volta.
Não é meu. Eu só uso ouro — Christian me presenteia com joias em todo aniversário de casamento.
Naquela época, ainda esperava estar enganada. Que era o brinco de uma colega, acidentalmente deixado durante uma viagem de negócios. Que era paranoia minha, inventando traições por tédio.
Mas então começaram as chegadas tarde em casa. Jantares familiares cancelados. O telefone virado com a tela para baixo. Perfume novo — leve, floral, nada do estilo dele. E aqueles olhares — ausentes, passando por mim, como se eu fosse um móvel.
No início, ele tentava esconder seus casos. Me beijava na bochecha ao sair para o trabalho, dizia: “Te amo, Eleonora”. Inventava desculpas plausíveis. Mas nos últimos meses, nem isso acontecia mais.
Ontem ele chegou às duas da manhã. Eu estava deitada na cama, acordada. Ouvi quando ele subiu as escadas e entrou no banho. Ficou lá por muito tempo. Depois deitou ao meu lado, sem nem se virar para mim.
— Onde estava? — perguntei baixinho na escuridão.
— No trabalho, — respondeu ele indiferente. — Apresentação para os investidores.
Eu sabia que ele mentia. E ele sabia que eu sabia. Mas ambos ficamos quietos.
Tenho quarenta e cinco anos. Somos casados há vinte e dois.
Nos conhecemos na universidade, no último ano. Eu estudava medicina e ele — economia. Christian era ambicioso, confiante, bonito. Me cortejou por três meses antes que eu cedesse. Nos casamos seis meses depois de nos formarmos.
Eu tinha acabado de receber o diploma, planejando trabalhar em uma clínica, quando ele disse:
— Eleonora, não quero que minha esposa trabalhe.
Fiquei surpresa:
— Mas eu sou médica. Estudei por seis anos.
— Eu sei. — Ele segurou minhas mãos. — Mas quero cuidar de você. Quero que cuide da casa, crie um lar acolhedor, seja feliz. Não desperdice suas forças em plantões noturnos. Eu vou ganhar o suficiente para nós dois.
Na época, soou romântico. Comovente. Concordei com alegria.
Vinte e dois anos atrás.
Christian subiu rapidamente na carreira. Primeiro como gerente, depois diretor regional, seguido por vice-presidente da empresa. Agora ele é proprietário de sua própria empresa de consultoria. Moramos em uma casa com piscina, temos dois carros, passamos férias nas Maldivas.
E eu… eu cuido da casa.
Cozinho, faço faxina, vou à ioga, encontro com amigas no café. Compro roupas, faço manicure, leio livros. Vivo em uma gaiola dourada.
Não tenho do que reclamar. Christian não é mesquinho. Se peço uma bolsa nova — ele compra. Quero renovar a decoração — ele me dá o cartão. Quis ir à Itália com a amiga — ele pagou a viagem.
Ele simplesmente não me ama mais.
Anteontem eu a vi. Por acaso.
Estava passando perto do escritório dele, parei no semáforo. E vi Christian saindo do edifício com uma mulher. Jovem — uns trinta anos, em um terno, cabelos longos e escuros. Ele dizia algo, e ela ria. Ele colocou a mão nas costas dela.
Eu estava no carro, apertando o volante, e observei enquanto eles entravam no carro dele. Ele ligava o motor e partia.
Não era um encontro com investidores. Com ela.
Em casa, fiquei na cozinha por um longo tempo, olhando para o vazio. Depois, abri o notebook. Pesquisei: “Como voltar ao trabalho após um intervalo”.
Vinte e dois anos. A medicina mudou completamente. Novos protocolos, tecnologias, medicamentos. Eu não lembrava de nada do que havia aprendido. Meus conhecimentos estavam desatualizados, o diploma acumulava poeira no armário.
Quem contrataria uma mulher de quarenta e cinco anos sem experiência?
Liguei para minha amiga Clara. Estudamos juntas, ela se tornou terapeuta, trabalha numa clínica privada.
— Clara, diga-me honestamente, — perguntei. — Se eu quisesse voltar para a profissão… é possível?
Pausa.
— Nora, você não pratica há vinte anos.
— Eu sei.
— Você teria que começar do zero. Talvez fazer residência de novo. Ou cursos. O salário seria irrisório nos primeiros anos.
— Entendo.
— Mas, por quê? — perguntou ela cuidadosamente. — Está tudo bem com Christian, não?
Eu não respondi.
— Nora? — A voz de Clara ficou séria. — O que aconteceu?
— Ele me trai, — suspirei. — Já há um tempo, provavelmente. Mas agora ele nem se esconde.
— Meu Deus. Tem certeza?
— Sim.
— E o que você quer fazer?
Exatamente. O que eu quero fazer?
Divorciar? Christian não vai resistir. Ele provavelmente até ficaria feliz. Vamos dividir os bens — a lei está ao meu lado. Fico com a casa ou dinheiro, pensão não há — não temos filhos.
E depois?
Tenho quarenta e cinco anos. Sem trabalho, sem profissão, sem habilidades. Com um diploma de há vinte e dois anos e um currículo vazio.
Posso tentar retornar à medicina. Anos de estudo, prática, miséria no início. Aos cinquenta, talvez atinja um nível decente. Ou encontro outro trabalho — como recepcionista, vendedora, qualquer coisa. Apenas para me sustentar.
Ou seria melhor ficar nesta casa? Fingir que não percebo suas traições, receber presentes caros, viajar para resorts, ir à ioga. Continuar sendo a bela e cuidada esposa de um homem de sucesso.
Esposa que ele não ama mais.
Ontem peguei meu velho manual médico. Abri aleatoriamente. Li uma página sobre tratamento de hipertensão. Não entendi metade dos termos.
Fechei o livro. Olhei no espelho.
Quarenta e cinco anos. A pele ainda está boa — graças ao cosmetologista. O corpo em forma — graças à ioga e dietas. Cabelos sem fios brancos — graças ao cabeleireiro caro.
Bela e cuidada casca vazia.
Hoje Christian saiu cedo. Disse que voltaria tarde — “reunião com parceiros”. Nem me deu um beijo de despedida.
E agora estou aqui sentada à mesa da cozinha com uma xícara de café, pensando.
Posso recomeçar? Aos quarenta e cinco anos, do zero, sem dinheiro, sem profissão?
Ou é uma tolice romântica e a realidade acabará com meus planos no primeiro mês?
Aqui estou confortável. Financeiramente. Casa bonita, geladeira cheia, cartão sem limite. Posso viver assim por mais vinte anos. Fechar os olhos para as traições dele, sorrir nos eventos sociais, ser a esposa conveniente.
Mas todas as noites, dormirei ao lado de alguém que ama outra.
Ou devo arriscar? Sair. Começar do zero. Ser pobre, cansada, lutando por cada centavo. Mas livre. E, talvez, feliz.
Talvez.
Ou talvez, dentro de um ano, eu me arrependa. Estarei em um apartamento alugado, contando centavos e pensando: “Por que fiz isso? Eu tinha tudo”.
O telefone está na mesa. Posso ligar para um advogado. Agora mesmo. Começar o processo de divórcio.
Ou seria melhor terminar o café e ir à ioga. Como de costume.
Christian voltará tarde. Perguntarei: “Como foi a reunião?” Ele responderá: “Normal”. Dormiremos na mesma cama, em lados opostos.
E amanhã será o mesmo.
Vinte e dois anos atrás, escolhi conforto em vez de carreira. Pensava que estava escolhendo amor.
Hoje tenho conforto. Mas não tenho amor, nem carreira.
Posso escolher novamente? Arriscar tudo pelo chance de ser feliz?
Ou estou velha demais, com medo demais, acostumada demais com a gaiola dourada?
O café está esfriando.
E ainda não sei a resposta.




