Histórias

Eu estava certa de que estava fazendo a coisa certa ao ajudar meu filho mais velho. Mas quando abri a porta do apartamento do meu filho mais novo, percebi o terrível erro que cometi…

Na quinta-feira, meu neto Max ficou doente novamente. Thomas ligou pela manhã com a voz cansada:

— Mãe, ele está com febre perto de quarenta graus. Anna está em uma apresentação importante e não pode sair. Você pode vir?

— Claro, meu querido, — respondi enquanto vestia o casaco. — Estou a caminho.

Max estava deitado no sofá — pálido, quente, fraco. Ele tem apenas quatro anos e fica doente quase todos os meses: bronquite, otite, resfriados intermináveis. Sentei-me ao lado dele, acariciei seus cabelos, dei-lhe um antitérmico. Ele sorriu fracamente:

— Vovó…

Meu coração se apertou. Meu pequeno, frágil neto. Meu único.

Thomas — meu filho mais velho, tem trinta e dois anos, casou-se há cinco anos. Anna — uma mulher maravilhosa, mas bastante empenhada na carreira. Ela frequentemente trabalha até tarde e viaja a trabalho. Eu não a julgo, mas alguém precisa ajudar com a criança. Especialmente uma criança tão doente.

Passei o dia todo com eles: li contos para meu neto, fiz sopa, troquei compressas. Fotografei Max dormindo com o ursinho e postei no Instagram: «Meu pequeno guerreiro se recuperando ❤». Meus seguidores encheram a postagem de corações.

À noite, Thomas voltou e me abraçou:

— Mãe, você é uma salvação. O que faríamos sem você?

— Não é nada, — eu disse com modéstia. — Por meu neto, qualquer coisa.

Voltei para casa tarde, cansada, mas satisfeita. E então me lembrei que meu filho mais novo, Lucas, havia me enviado uma mensagem no início do dia: «Mãe, ligue quando estiver livre». Eu pretendia ligar — mas esqueci. Olhei para o relógio – já era tarde. Decidi ligar no dia seguinte.

O dia seguinte virou três dias. Max teve febre novamente, Anna foi para uma conferência, Thomas não pôde tirar um dia de folga. Passei quase uma semana com eles.

No sábado, Lucas ligou. A voz seca:

— Mãe, você está viva?

— Lucas! Desculpe, querido, estou com o Thomas, Max está realmente mal. Como você está?

— Normal.

— No trabalho?

— Normal.

Pausa.

— Você queria dizer algo?

— Não importa. Depois.

Ele desligou. Eu franzi a testa, mas Max começou a chorar — e eu esqueci da conversa novamente.

Duas semanas depois foi o aniversário de Lucas — vinte e oito anos. Eu planejava fazer seu bolo de cereja favorito, comprar um presente. Mas na véspera, Max ficou doente novamente, os médicos suspeitaram de pneumonia. Eu me dividia entre o hospital e a casa de Thomas, tentando acalmar Anna, que chorava impotente.

Lembrei do aniversário de Lucas às onze horas da noite, deitada exausta no sofá.

Peguei o telefone: «Lucas, querido, feliz aniversário! Desculpe por não ter ligado, estamos vivendo um pesadelo com Max. Amanhã eu vou, vamos celebrar!»

A resposta chegou uma hora depois: «Obrigado».

E só.

Eu planejava ir, mas Max foi internado. Nós, eu e Thomas, nos revezávamos para cuidar dele. Anna cancelou a viagem a trabalho, mas estava abatida. Eles precisavam da minha ajuda.

Eu nunca consegui ir até Lucas.

A crise aconteceu um mês depois.

Eu apareci de surpresa na casa de Lucas — decidi visitá-lo, levei algumas compras. Ele demorou a abrir a porta e parecia exausto.

— Lucas, você está bem?

— Ótimo, — ele resmungou, me deixando entrar.

O apartamento estava desorganizado: louça, roupa, poeira.

— Filho, o que aconteceu?

— Nada. Trabalho. Cansado.

Comecei a arrumar a cozinha, conversando sobre Max — como ele estava melhorando, como disse algo engraçado. Lucas ficou em silêncio, então abruptamente se levantou:

— Chega!

Eu congelei.

— O quê?

— Chega de Max! — sua voz falhou. — Para você, mais ninguém existe! Tudo — para Max! Tudo — para Thomas! E eu? Eu — o segundo plano!

— Lucas, como você…

— Você esqueceu meu aniversário, mãe! Pela primeira vez em vinte e oito anos! — Ele caminhou pela sala. — Eu te liguei três semanas atrás, queria te contar que fui promovido – nomeado analista sênior! Você sabe o quanto trabalhei para isso? Você nem perguntou!

Tentei me lembrar daquela conversa. Ele disse… mas Max estava chorando na época…

— Lucas, desculpe, eu não…

— Não percebeu? — ele riu amargamente. — Estou saindo com uma garota há seis meses. Seis meses, mãe. Você sabia?

Eu permaneci calada.

— Exatamente. Porque toda nossa conversa é cinco minutos: «Como você está?» — «Bem» — «Preciso ir ao Thomas, Max está doente». — Ele se sentou, cobriu o rosto com as mãos. — Eu não existo mais para você.

— Não é verdade! — Aproximei-me, tentando abraçá-lo, mas ele se afastou. — Lucas, eu amo vocês dois igualmente!

— Mentira. — Ele ergueu a cabeça, os olhos vermelhos. — Você sempre amou mais o Thomas. Ele — o primogênito, bem-sucedido, com família. E eu — o mais novo, que «se vira sozinho».

— Filho, você é um homem adulto, e Max — é uma criança! Ele está doente, ele precisa de ajuda!

— Você está com ciúmes de uma criança? — escapou de mim.

Lucas empalideceu.

— Saia, — ele disse suavemente.

— Lucas…

— Saia, mãe.

Eu saí. Chorando. Em choque. Como ele podia estar com ciúmes de um sobrinho de quatro anos doente?

Em casa, liguei para o meu filho mais velho e contei sobre minha conversa com o mais novo. Ele suspirou:

— Mãe, Lucas sempre foi infantil. Ele tem vinte e oito anos, mas se comporta como um adolescente. Não leve a sério.

Mas eu levei.

Lembrei-me: aniversário — esqueci. Promoção — perdi. Namorada — não sabia. Quando foi a última vez que realmente me interessei por sua vida?

Abri o Instagram. Nos últimos seis meses — só Max. Dezenas de fotos. Legendas: «Meu neto favorito», «O melhor tempo — com Max», «A alegria da vovó».

Nenhuma foto com Lucas.

Ele parou de ligar. Não respondia às mensagens. Eu aparecia — ele não abria a porta. Thomas dava de ombros: «Vai esfriar».

Mas semanas passavam, e eu percebia: ele não vai esfriar. Ele está sofrendo.

E Max… Ontem Max adoeceu novamente. E Thomas ligou:

— Mãe, por favor, ajude.

Agora estou sentada em casa e não sei o que fazer.

Posso ir até Max. Ele está doente. Ele está mal. Uma avó pode recusar ajudar um neto doente?

Mas Lucas… ele também é meu filho. Mesmo tendo vinte e oito anos. Mesmo sendo adulto.

Será que ele está certo? Talvez eu realmente o tenha esquecido, me consumido ao cuidar do neto?

Mas não é correto ajudar uma criança doente?

Ou isso é uma desculpa conveniente?

É possível amar da mesma forma quando um é uma criança de quatro anos doente e o outro um homem adulto? Ou os filhos adultos também precisam do amor materno?

Eu não sei a resposta.

E temo que enquanto procuro por ela, possa perder meu filho mais novo para sempre.

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