Histórias

A filha voltou do Japão com seu noivo japonês, e o primeiro jantar em família ameaçou nossas relações… 

Eu recebi minha filha Emília no aeroporto. Ela saiu da área de desembarque como um furacão, me abraçou tão forte que por um momento pensei: nada mudou. Minha menina voltou. Mas de repente ele apareceu atrás dela.

— Mamãe, este é o Yuki — ela suspirou, radiante. — Meu noivo.

O jovem reverenciou-se cerimoniosamente e me entregou uma pequena caixa com as duas mãos. Eu automaticamente a peguei com uma mão só — e percebi que algo tremeu em seus olhos. Decepção? Desconforto? Emília rapidamente sussurrou algo em japonês, e ele sorriu tensamente.

— O que é isso? — perguntei.

— Doces tradicionais de Kyoto — traduziu minha filha. — Ele se esforçou muito para escolhê-los.

Agradeci.

No carro, o silêncio caiu. Emília sentou-se atrás, ao lado de Yuki, sussurrando algo para ele, traduzindo, explicando. Eu olhava para eles pelo espelho: ele parecia confuso, ela — tensa. Tentei iniciar uma conversa:

— Yuki, o que você acha da nossa cidade?

Pausa. Emília traduziu. Ele respondeu. Ela traduziu de volta:

— “Muito bonita, obrigado”.

Cada frase passava por ela, como um filtro, e aos poucos deixei de tentar.

Eu preparei o jantar em família por três dias. Convidei minha irmã Marta e seu marido, meu irmão Thomas. Arrumei a mesa nas melhores tradições da nossa família. Queria que Yuki visse o melhor da nossa família.

Ele veio de terno preto e camisa branca com gravata preta. Marta me lançou um olhar significativo e sussurrou: “Parece um agente funerário…”

— Vamos brindar aos noivos! — proclamou Thomas, levantando uma taça.

Yuki pegou seu copo, tomou um gole… e colocou de volta. Sem esperar pelo brinde. Congelamos com os copos levantados, como estátuas. Emília ficou pálida:

— Ele não sabia que deveria esperar — disse ela rapidamente. — No Japão é diferente.

— Não tem problema — sorri tenso, mas Marta já cochichava algo desaprovador ao marido.

Depois, piorou. Yuki recusou a torta, alegando que não come farinha à noite. Não tocou no assado — parece que ele tem uma dieta especial. Quando Thomas deu um tapa amigável em seu ombro, Yuki recuou como se tivesse levado um soco. E quando tentei servir mais salada para ele — um gesto de hospitalidade que em nossa família era quase um ritual — ele cobriu o prato com a palma da mão.

— Ele diz “não precisa”, mamãe — traduziu Emília com a voz cada vez mais tensa. — Ele já está satisfeito.

Mas eu vi: ele quase não comeu nada.

Quando os convidados se foram com expressões azedas, eu não aguentei:

— Emília, precisamos conversar.

Fomos para a cozinha. Yuki ficou na sala com o telefone.

— Eu entendo que eles têm outra cultura — comecei, tentando falar calmamente. — Mas ele nem tenta. Não cumprimenta direito, recusa tudo, não sorri. Como se fôssemos inimigos.

— Mamãe, você não entende! — Emília explodiu. — Ele se esforçou muito! Ele sofreu a noite toda, sem saber a língua, sem entender as regras. E você olhava para ele, como uma rainha a quem nada agrada!

— Eu tentei ser hospitaleira!

— Você estava fria! — os olhos da filha se encheram de lágrimas. — Isso é xenofobia, mamãe. Você não quer aceitá-lo porque ele não é como nós.

A palavra me atingiu como um tapa na cara.

— Xenofobia? — perguntei novamente. — Emília, eu preparei o jantar por três dias, os recebi, tentei conversar, embora ele não respondesse…

— Ele não pode! Ele estuda o idioma há apenas três meses! — ela enxugou uma lágrima. — Pensei que você ficaria feliz por eu estar feliz. Mas para você é importante que ele coma sua torta e suporte quando o tio Thomas o estapeia como um urso!

— Isso foi amigável…

— Ele não gosta que estranhos o toquem! Na cultura dele isso não é aceito! Mas você nem tentou entender!

Ficamos frente a frente, respirando pesadamente. Eu procurava palavras, mas ela continuou — agora mais quieta, mais dura:

— Vamos embora, mamãe. Para Tóquio. Lá está o trabalho dele, a família dele, nossa vida. Eu queria que você nos abençoasse, mas se você é contra… — ela parou, depois acrescentou quase sussurrando: — Talvez seja melhor não nos encontrarmos. Até você aprender a respeitar minha escolha.

A porta bateu. Eles foram para a casa de amigos. Fiquei sozinha na cozinha — entre pratos não comidos e cristal festivo.

Agora estou sentada na janela com um chá frio, tentando entender.

Será que realmente não dei a ele uma chance? Julguei pelos meus padrões, sem tentar ver com os olhos dele? Mas uma mãe não tem o direito de se preocupar quando a filha se casa com alguém com quem a futura sogra nem consegue conversar?

Ou o problema sou eu? Em me agarrar às minhas tradições, ao conhecido, ao passado, que para Emília já não é tão importante? Ela cresceu em um mundo onde fronteiras são apenas linhas no mapa.

Mas então, por que dói tanto? Por que parece que estou perdendo ela não pela distância, mas porque agora entre nós há uma pessoa que transformou minha filha em tradutora — não apenas de palavras, mas de significados, sentimentos, do próprio amor?

Eu perdi minha filha por não conseguir aceitar o desconhecido? Ou ela traiu tudo o que construímos por alguém que nem tentou fazer parte do passado dela?

O telefone está silencioso. A madrugada está chegando. E eu ainda não sei a resposta.

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